Maioria das empresas portuguesas está sem modelos de ERM

Falar em “enterprise risk management” ainda é um problema para muitos gestores em Portugal. Antecipar cenários é uma ajuda ímpar porque identificam riscos e preveem impactos.

A pandemia pode custar mais de dois mil milhões de euros ao comércio internacional de mercadorias, de acordo com um estudo do segurador Cosec/Euler Hermes. Mais. Esse mesmo estudo também refere que “findo o confinamento, o comércio poderá permanecer abaixo de 90% do que se registava antes da crise”. Mas nem tudo é negativo para a Euler Hermes, que estima que o comércio internacional de mercadorias venha a crescer 10% em volume e 15% em valor durante 2021.

Este é apenas um dos problemas que se coloca a países, empresas e famílias. Da lista das preocupações do relatório “Covid-19 Risks Outlook: A Preliminary Mapping and its Implications”, publicado pelo World Economic Forum, constam a recessão económica prolongada, o elevado desemprego, a ocorrência de um novo surto da doença infeciosa e o protecionismo. Este documento teve a colaboração da Marsh e da Zurich Insurance. Aliás, a Marsh revela num estudo feito em Portugal que os ataques cibernéticos, a retenção de talentos, a instabilidade política e social, os eventos climáticos extremos e a concorrência são os principais riscos para as empresas. Curiosamente, na referência feita a janeiro de 2020 indicava o risco de pandemia como uma das possibilidades que os gestores teriam de fazer frente.

Na mesma linha, refira-se um trabalho da consultora EY, onde se destaca que “as empresas que forem mais ágeis na identificação de soluções tenderão a recuperar mais depressa e a reforçar o seu posicionamento competitivo. E aqui entram os riscos e o papel dos modelos de ERM – “enterprise risk management”. Rodrigo Simões de Almeida, country manager da Marsh Portugal, diz ser importante referir que “a larga maioria das empresas portuguesas não têm modelos concretos de ERM, pelo que uma empresa que tenha verdadeiramente desenvolvido um ERM atuará de forma muito diferente daquelas que tenham um plano de gestão de crises mais simples. No entanto, em qualquer empresa, se os gestores de cada área fizerem o levantamento dos riscos que os poderão afetar, bem como os mais impactantes, ainda que muito remotos – como foi o caso da pandemia que estamos a viver, será valioso para identificar necessidades e definir planos de mitigação, além de avaliar se esses mesmos riscos podem ser autosseguros ou se estão devidamente transferidos para uma apólice de seguro”. E conclui que a sua maior recomendação a um gestor de risco “é que baseie a sua atuação nos planos de gestão de crises existentes, complementando os mesmos em função do evento ocorrido, erecorra aos melhores consultores para realizar uma análise detalhada dos programas de seguro existentes”. José Miguel Baptista, diretor de ERM na Willis Towers Watson, tem opinião idêntica: “No futuro imediato, e para fazer face à expectável subida tarifária dos seguros, a preocupação dos gestores deverá passar por ajustar o seu programa de transferência de riscos à sua própria realidade, quantificando as perdas potenciais que a sua organização poderá sofrer e, como essa informação, negociar com o mercado segurador programas ajustados às suas reais necessidades. Esta quantificação só é possível recorrendo a análises atuariais, razão pela qual os corretores que dispõem de soluções analíticas se diferenciam dos demais no apoio que podem prestar aos seus clientes. Mas nestes cenários de crise, mais importante que o presente ou o futuro é o passado. A chave para se passar por estes momentos com o mínimo de perdas possível reside na antecipação dos mesmos e na correta preparação da empresa e de todos os que a integram”.

Em concreto e quando se fala em riscos potenciadores de crises começamos por dividi-los entre os chamados de ambientalistas ou derivados da natureza, e que Pedro Rego, CEO da F. Rego, diz ser adequados uma apólice de danos materiais e de perdas de exploração, sendo que é garantido o dano direto e o indireto, decorrente da disrupção de cadeias de abastecimento. Na parte dos riscos cibernéticos é relevante ter em conta uma apólice que garanta os danos sofridos pela própria empresa e os custos da sua mitigação, a par dos “danos decorrentes dos prejuízos provocados a terceiros, seja por paralisações, seja por utilização fraudulenta de dados”, diz ainda Pedro Rego. Aliás, os riscos cibernéticos disparam, sublinha Ricardo Azevedo da Innovarisk. Relevante ainda para este gestor são as apólices D&O, que se destinam a cobrir a responsabilidade legal das pessoas que exercem funções de direção e administração relativamente a erros que possam ocorrer. E sobre o risco pandémico Fernando Morales, da Abarca Seguros, diz que as empresas não foram capazes de prever situações extremas como as que se vivem atualmente, e mesmo que as tivessem previsto não haveria soluções. Diz que em face do atual surto pandémico “as empresas vão querer passar a gerir fenómenos aleatórios extremos”. E antecipa que irão ser colocados no mercado soluções para gerir os riscos resultantes de tais fenómenos.

Um último aspeto respeita à tecnologia e à possibilidade de ajudarem na alteração rápida de produtos. Edgar Alba, sócio-fundador da Koolsite, diz que os sistemas tecnológicos “permitem a definição parametrizada de produtos, codificação, descrição, duração, formas de fracionamento, coberturas, cálculo de prémios, regras de aceitação e resseguro.”

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