Mamadou Ba e a coragem

Chamar criminoso a Marcelino da Mata é chamar criminosos a todos os portugueses que lutaram por aquilo que entendiam ser o seu dever, e pelo País.

1. Marcelino da Mata, português nascido na Guiné Bissau e falecido recentemente em Lisboa, aos 80 anos, é um homem de que oiço falar desde a infância. Filho de pai militar, habituei-me ao registo periódico das proezas do combatente.

Houve uma fase, confesso, em que julguei essas histórias, que hoje estão disponíveis na net com o nome de ‘Operação Mar Verde’ ou ‘Operação Tridente’, entre muitas outras, como um mito destinado a comunicar a razão da guerra colonial vista do lado imperial do regime do Estado Novo. Só mais tarde, já quase adulto, terminada a guerra em consequência do 25 de Abril de 1974, percebi que o personagem não era inventado, existia mesmo. Marcelino da Mata era o homem destemido que tantas vezes ouvira descrever – e era o militar mais condecorado do exército português. Era verdade.

2. Mamadou Ba, português nascido no Senegal há 47 anos, tornou-se conhecido na nossa sociedade pela sua luta contra o racismo. Já o ouvi dizer coisas interessantes, sobre as quais vale a pena refletir e outras absolutamente lamentáveis. Chamar “bófia” e “bosta” às forças de segurança ficaram como os soundbytes mais representativos das últimas, incómodos até para o partido do qual era então militante e assessor parlamentar, o Bloco de Esquerda.

A notoriedade que lhe adveio da sua longa luta contra o racismo levou-o a integrar o Grupo de Trabalho para a Prevenção e Combate à Discriminação Racial. E daí atirou o post a propósito da morte do homem que deixara de combater quando ele ainda não era nascido: “Marcelino da Mata é um criminoso de guerra que não merece respeito nenhum”.

3. Marcelino da Mata e Mamadou Ba têm, pois, muitas coisas em comum, que não apenas a cor da pele. Ambos escolheram Portugal. Ambos assumiram uma missão. Ambos decidiram combater o racismo, cada qual à sua maneira. Ambos foram aceites por uma sociedade multirracial e tolerante, que nem sempre justa. E no caso de Marcelino da Mata, como se sabe, não o foi de todo. Aí, Mamadou Ba tem sido um privilegiado do Portugal já democrático.

4. Compreendo a indignação dos 15 mil portugueses que subscreveram o abaixo-assinado que pede a deportação de Ba – e que, pela sua dimensão, terá de ser apreciado pelo plenário da Assembleia da República. Não concordo nem apoio, apenas compreendo, assinalando o óbvio: violência gera violência, intolerância paga-se com intolerância. Já a queixa do Chega à PGR, estribada na lei, faz apenas parte do jogo político, interessa-me menos.

5. Espero que Mamadou Ba também morra português e daqui a muitos anos, vendo alguns resultados da sua luta contra o racismo, mas não posso deixar de assinalar: na sua militância agressiva, Ba confunde o militar com o regime, o patriota com a essência da opção do país na altura, o insulto com a liberdade de opinião. Chamar criminoso a Marcelino da Mata é, por extensão lógica, chamar criminosos a todos os portugueses que na altura lutaram por aquilo que entendiam ser o seu dever, e pelo País.

Marcelino da Mata foi um produto do seu tempo, tal como o foram muitos outros do outro lado da barricada da guerra colonial. Em cenários desses não há inocentes, como a literatura e a História explicam.

A tirada de Mamadou não tem, sequer, nada a ver com a luta antirracista – e eu bem admitiria que ele tivesse acusado Portugal de não ter sido justo com Marcelino da Mata.

É por tudo isto que gostava de o ver pedir desculpa à memória do homem que ofendeu. Isso, para mim, seria coragem.

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