“Clarificar o roteiro” depois da revisão estratégica é o mote para a reunião de hoje do BCE

Esta é a primeira reunião do Conselho de Governadores desde que o BCE anunciou uma alteração da meta da inflação simétrica para 2%. Analistas esperam esclarecimentos sobre como é que o banco central espera atingir os objetivos anunciados e pistas para a ação futura.

“O que deveria ser uma reunião não-evento do BCE em julho tornou-se um ponto-chave da semana após a divulgação da revisão estratégica do BCE”. É desta forma que Petr Krpata e Carsten Brzeski, analistas do ING, classificam a reunião do Conselho de Governadores do Banco Central Europeu (BCE) desta quinta-feira, duas semanas depois de Christine Lagarde ter anunciado a terceira alteração da meta de inflação na história da instituição.

Esta é a primeira reunião do Conselho de Governadores desde que o BCE anunciou uma alteração da meta da inflação simétrica para 2%, atualizando o anterior mandato de promover a estabilidade de preços de uma inflação abaixo, mas perto de 2%, e passou a admitir que podem existir períodos transitórios, durante os quais a inflação se fixe “moderadamente” acima da meta.

“Esta reunião é importante, já que o BCE vai ter de clarificar o seu roteiro na sequência do seu anúncio de revisão estratégica a 8 de julho. Com efeito, prevê-se que, o objetivo para a inflação, definido em 2003 como “abaixo, mas próximo dos 2%”, evolua para um objetivo de inflação simétrico nos 2% a médio prazo”, antecipa Franck Dixmier, global CIO fixed income da Allianz Global Investors (AllianzGI).

Filipe Garcia, economista da IMF- Informação de Mercados Financeiros, explica ao Jornal Económico (JE) que “a alteração é subtil, mas tem alguma importância. O objetivo anterior “próximo, mas abaixo de 2%” transmitia a mensagem de que a inflação não deveria, em nenhuma circunstância, ficar acima de 2%, privilegiando um cenário de inflação mais baixa. Dito de outra forma, ficava patente uma maior preocupação se a inflação fosse acima de 2% do que se fosse muito baixa”.

Ao JE, Paulo Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, sublinha que esta nova política não é uma média à volta dos 2% e o BCE não pretende compensar com inflação os períodos deflacionistas da última década e meia, tal como a Reserva Federal (Fed) dos Estados Unidos, desde que adoptou uma estabilidade de preços à volta dos 2%, em agosto do ano passado. “A adoção da nova política pelo BCE permite preços acima dos 2% para estimular o crescimento económico após a crise ditada pela pandemia, enquanto que a superação dos 2% para o banco central dos EUA é não só para impulsionar o crescimento económico e alcançar o pleno emprego, mas também para compensar anos marcadamente deflacionistas. Aqui reside a principal diferença entre a nova meta do BCE e da Fed”, argumenta.

Desta forma, as expectativas do mercado para a conferência de imprensa após a reunião do Conselho de Governadores estão elevadas. Segundo Franck Dixmier, espera-se que “possa constituir uma oportunidade para a presidente Christine Lagarde reiterar o seu compromisso de se manter extremamente cautelosa e de manter uma política monetária acomodatícia, conforme sugerido nas suas inúmeras intervenções recentes”.

“Apesar de um abrandamento das condições financeiras em maio, graças à redução das taxas de juro de longo prazo, o ressurgimento da pandemia representa uma ameaça para as perspetivas de crescimento na zona euro”, realça.

Para o analista é crucial que a líder do banco central esclareça como pretende atingir o seu objetivo do BCE na prática e responda a três questões: “o que significa “política monetária persistente”? As ferramentas apresentadas como não convencionais no momento de sua implementação (compras de ativos, TLTROs) são agora parte integrante da caixa de ferramentas do banco central e é suposto o PEPP terminar em março de 2022. Assim, quais vão ser os novos programas colocados em prática, com que valores e duração?”; qual será a margem de manobra real diante de uma inflação acima dos 2%?” e “o que se entende por “período de transição”?”.

Certo é que segundo Carsten Brzeski o BCE não deverá aumentar as compras de ativos, apesar da incerteza que assombra novamente a recuperação económica devido à propagação da variante Delta. “Não achamos que o BCE irá tão longe ao ponto de realmente aumentar as compras de ativos, uma vez que os falcões do BCE já estavam a sugerir uma redução nas compras de ativos na reunião de junho”, assinala, contudo que estes poderão manter-se “em silêncio até a reunião de setembro”, vincando que “aumentar as compras de ativos seria claramente um passo longe demais”.

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