Manobras de diversão

Quando são apresentadas propostas que arrasam com o regime fiscal que nos ajudou a sair da crise, é sinal que os políticos não aprendem com os erros.

Não há ano em que as negociações para o Orçamento do Estado não venham acompanhadas de episódios caricatos. Cada partido que apoia o Governo tem a árdua tarefa de mostrar que é diferente e que é o verdadeiro responsável pela devolução dos direitos e rendimentos de trabalhadores e pensionistas.

São encenadas divergências, minicrises, com o propósito de criar incerteza e uma sensação de instabilidade, a somar ao facto de qualquer mudança poder representar o regresso da austeridade.  Não tenhamos dúvidas que o poder é a principal motivação de grande parte destas manobras de pura publicidade e manipulação, não o bem comum.

Nos últimos anos, Portugal gozou de uma estabilidade que não se via há muito, consequência da diminuição das greves e da contestação social. O crescimento do turismo, a subida vertiginosa dos preços do imobiliário e o crédito ao consumo trouxeram de volta o deslumbramento. Finalmente somos o que sempre desejámos, a Florida da Europa.

No entanto, algo não bate certo. Quando são apresentadas propostas que arrasam com o regime fiscal que nos ajudou a sair da crise, é sinal que os políticos não aprendem com os erros. Tal como para estar à frente de uma instituição financeira é necessário preencher determinados requisitos de experiência, habilitações, qualificações, idoneidade, entre outros, também para o cargo de político deveríamos ter mínimos exigíveis.

A proposta para acabar com os benefícios fiscais concedidos aos milhares de estrangeiros que estão a fruir da Florida europeia, é uma autêntica manobra de diversão para forçar o Governo a corrigir o congelamento da progressão das carreiras. Este tipo de negociação irá sair caro ao país, e é um autêntico tiro no pé. Com a desculpa de que a medida custa mais de 400 milhões de euros por ano, os seus autores esquecem-se de mencionar os benefícios traduzidos em milhares de milhões de euros de investimento no imobiliário e no consumo interno, que permite que muitos negócios permaneçam abertos ou contratem, ou que os bancos tenham os seus balanços mais limpos.

Esta proposta representa o mais baixo do populismo, que serve apenas para ilustrar como a cegueira ideológica está enraizada em Portugal, não permitindo sequer reflectir sobre um dos conceitos mais básicos da economia: a análise custo-benefício.

Enquanto somos anestesiados por propostas eleitoralistas, existe um país à espera de investimento. As infra-estruturas do Estado têm sido negligenciadas, dando origem a que o aumento de rendimento disponível das famílias seja gasto nas alternativas privadas, na educação, na saúde ou transportes.

Por cá anunciamos investimento para 2023, 2024 ou 2030, enquanto que, do outro lado do Atlântico, a economia americana avança a todo o vapor, contando com duas empresas que já valem mais de um bilião de dólares. A diferença entre prometer ou executar está à vista.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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