Marcelo quatro anos depois

Marcelo fez campanha eleitoral todos os dias. Como continuará a fazer, durante a segunda parte do seu mandato de dez anos. Junto das pessoas e além do que disserem os seus detratores.

Ocorreu esta semana o impensável. O Presidente da República, ao perfazer quatro anos sobre a sua tomada de posse, esteve longe das pessoas e impossibilitado de lhes transmitir afeto.

Quando lançou a sua campanha eleitoral para a presidência em finais de 2015, Marcelo Rebelo de Sousa anunciou que iria fazer da proximidade a marca de água do seu mandato. Entrados no último ano e enquanto mantém um prudente tabu acerca da sua recandidatura, não apenas cumpriu como se sublimou esse propósito.

Ao longo destes meses e quando se poderia pensar que se viveriam momentos políticos de eventual tensão entre uma maioria de esquerda e um Presidente que se assume do contrário, tal não se confirmou. Enquanto Presidente proporcionou espaço e oportunidade a que uma maioria parlamentar se afirmasse, não contribuindo para a instabilidade e se concretizasse a recuperação da crise económica e financeira encetada desde 2011 pelo governo de Pedro Passos Coelho.

Marcelo deu uma nova roupagem à função de Presidente. Cada titular do cargo, durante estas décadas de democracia, teve oportunidade de lhe conferir personalidade e caráter. Mais sisudos e distantes, mais afáveis ou próximos, todos foram diferentes. Quando se poderia esperar um chefe de Estado político e constitucionalista, com intervenção direta na ação política, Marcelo não subiu nenhum pedestal, não se refugiou num palácio, nem se deixou contaminar pelo poder.

Pelo contrário, percorreu caminhos e estradas, passou por feiras e romarias, acompanhou comemorações e tragédias. Sem pompa ou circunstância vai a todo o lado, convidado por todos e a todos satisfazendo. Com potenciais exageros, por vezes quase populistas, de manifestações de afeto que as pretensas elites criticam, mas as pessoas agradecem, particularmente quando mais precisam, como nas tragédias dos incêndios em Pedrógão, Mação ou Monchique.

Sem transigir nas suas convicções, deixando largo espaço de manobra ao governo socialista, proporcionou críticas veladas do seu espaço político, incapazes de assumir a responsabilidade de construir uma alternativa firme à governação atual.

Aliás, percebendo que tinha mais a ganhar do que a perder e no seu habitual registo de habilidade política, o primeiro-ministro António Costa calou vozes e tem cavalgado à boleia do sistema politico, mesmo que tenha descaído em múltiplas ocasiões nas cedências à esquerda com ou sem acordo escrito. E para onde derivará em futuras oportunidades para ensaiar a sobrevivência em minoria parlamentar, mas com uma flexibilidade política na gestão das ambições da esquerda, quer a radical, quer a conservadora.

A esquerda, a real e utópica, a ideológica e a condicionadora, sente a tensão deste ciclo político, ensaiando o lançamento de uma candidatura agregadora e que ponha em xeque não Marcelo, mas António Costa. Este assobia para o lado. As presidenciais não são a sua praia. Por enquanto. Como outros ignoram olhando de lado, sabendo que nunca para isso terão dimensão.

Independentemente das candidaturas que surgirem, uns em busca de protagonismo bacoco, outros de mero palco cénico, as pessoas, o povo, os eleitores distinguem bem a realidade do mero jogo político. Durante o mandato já percorrido Marcelo fez campanha eleitoral todos os dias. Como continuará a fazer, durante a segunda parte do seu mandato de dez anos. Junto das pessoas e além do que disserem os seus detratores. Prestando humanidade à função. É isso que as pessoas querem. Saber que têm alguém sempre presente.

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