Mário Ferreira retoma cruzeiros no Douro e prepara-se para EBITDA negativo de 25 milhões em 2020

A Mystic Invest, de Mário Ferreira e do fundo Certares, retomou este mês a atividade dos cruzeiros do Douro e admite “reativar” todos os trabalhadores que colocou em lay-off, durante o mês de setembro, se o mercado norte-americano entretanto abrir. Mas diz que manteve o investimento previsto de 110 milhões e está a estudar uma das seis operadoras de cruzeiros dos EUA “que estão em dificuldades financeiras”. “São empresas agregadas a outras mega-empresas” de turismo, disse ao Jornal Económico, o dono da Douro Azul e acionista da TVI.

O grupo Mystic Invest, liderado por Mário Ferreira, está à espera de fechar o ano de 2020 com uma facturação de 90 milhões de euros, o que equivale a um terço dos 270 milhões que estavam previstos antes da crise provocada pela pandemia de Covid-19, disse o empresário num encontro com jornalistas que teve lugar na passada sexta-feira, em Vila Nova de Gaia.

O patrão da Douro Azul acrescentou, que nesta conjuntura, a empresa espera fechar o ano com um resultado antes de juros, impostos, depreciações e amortizações (EBITDA) negativo em 25 milhões de euros. A geração de caixa na atividade será, ainda assim, menos negativa do que Mário Ferreira previa, quando, perante o lockdown económico, admitiu um cenário de facturação “zero”, com um EBITDA negativo em 47 milhões de euros.

No encontro em Gaia, que serviu para anunciar a retoma dos cruzeiros fluviais no Douro, com a embarcação Douro Serenity, admitiu que no início do ano a empresa preparou-se para dois cenários. “O cenário zero de facturação em 2020 e o segundo cenário era o ‘cenário 15 de julho’, data em que prevíamos retomar a atividade dos cruzeiros mas com uma taxa de ocupação inferior, e em que os prejuízos seriam atenuados”, explicou.

“A realidade foi que no primeiro semestre, até fim de junho, ficamos com dois milhões de euros acima das expetativas do EBITDA, porque conseguimos fazer alguma coisa em junho o que não estava previsto”, revelou o empresário. No entanto “a previsão de julho está abaixo das expetativas por causa dos cruzeiros de mar que não estamos a conseguir arrancar porque os portos não abrem”, acrescentou o patrão da Douro Azul.

“A previsão mais recente para este ano [facturação] está nos 90 milhões de euros, o que não é nada face ao que tínhamos orçamentado para este ano e que era de 270 milhões de euros na holding ligada a turismo de cruzeiros”, diz Mário Ferreira.

“Se não fizéssemos nada (cenário zero) teríamos um EBITDA negativo em 2020 de -47 milhões de euros, o que comparando com o que tínhamos orçamentado no início do ano, que era um EBITDA positivo de 45 milhões, dá uma ideia da perda este ano”, fruto do lockdown económico determinado pelo Governo para conter a pandemia do Covid-19.

“Mas agora esperamos acabar o ano com um EBITDA negativo de -25 milhões de euros, o que não é nada mau, dada a dimensão global da empresa. Isto mantendo um investimento de 110 milhões que não desaceleramos, o que foi bom para a indústria portuguesa”, ressalva o gestor da Douro Azul.

Mário Ferreira revelou que “fizemos um esforço, e já temos construído uma embarcação para o Rio Douro, a mais luxuosa, que ainda nem batizada foi”- Esta embarcação vai substituir uma embarcação mais antiga que é a “Alto Douro”, explicou.

O presidente da Mystic Invest manteve também a construção dos navios para cruzeiros oceânicos, apesar da crise.

Em outubro de 2019, o grupo inaugurou o MS World Explorer que foi o primeiro de três navios oceânicos encomendados pela Mystic Cruises de Mário Ferreira aos Estaleiros de Viana do Castelo. “Já construímos o World Explorer, o Voyager acaba este mês de agosto e o Navigator está quase todo construído. Estão cinco navios oceânicos em construção nos Estaleiros de Viana, um para entrega em agosto, um para entrega em abril do próximo ano e assim sucessivamente todos os anos”, revelou.

O MS World Explorer foi construído para um cruzeiro que tem como destino final a Antártida.

O grupo aderiu ao lay-off simplificado devido à paralisação dos seus cruzeiros, pondo nesse regime cerca de 400 trabalhadores da Douro Azul. Mas tem vindo a reduzir este número à medida que foram abrindo a atividade. Mário Ferreira disse que o grupo espera “em setembro conseguir ativá-los quase todos. Mesmo com a atividade a meio gás”.

“Mas vai depender da autorização de voos dos norte-americanos para Portugal. Isso é que vai ser determinante. Se não houver autorização, quatro dos 12 navios do Douro vão continuar parados”, ressalvou o empresário.

A empresa aposta agora no mercado português com um programa de quatro cruzeiros, dirigido ao mercado nacional, a bordo de um dos seus mais modernos navios-hotel, o Douro Serenity. Os preços foram também ajustados à realidade portuguesa.

Para agosto “estamos à espera de uma boa reação dos portugueses. Estamos com uma campanha na televisão e nos jornais. Sempre tivemos dificuldade em despertar curiosidade no mercado português”, confessou.

A Douro Azul, maior operadora de cruzeiros fluviais da Europa, tem a atividade do turismo no Douro e também dois navios a operar para o mercado alemão, desde junho.

“Surpreendentemente essas é que são as boas notícias, é que aí já avançámos dentro dos 70, 75% de ocupação, no Danúbio, Reno, Croácia. A atividade dos cruzeiros de rio no mercado alemão [Nicko Cruises] é a que está a arrancar melhor”, disse.

“Em breve, será a [empresa] americana”, voltou a admitir Mário Ferreira. “Estão neste momento seis empresas de mega-cruzeiros dos EUA à venda e nós estamos a olhar para uma delas, que é muito maior que a nossa. Estamos a falar de navios abaixo de 600 passageiros”, disse. “São empresas que estão em dificuldades financeiras. Estão agregadas a outras mega-empresas” de turismo, disse ao Jornal Económico.

Alguma das empresas que estão à venda estão debaixo da Carnival Cruise e da Royal Caribbean, explicou o chairman e CEO da Mystic Invest.

Estão neste negócio em parceria com os sócios norte-americanos, o fundo, Certares Management, que “tem por trás os 8 maiores fundos do mundos, que gere as participações dos fundos soberanos, fundos de private equity, e fundos de pensões”.

O Jornal Económico apurou que são fundos como a BlackRock, Dubai Holdings, Harvard Pension Fund, Qatar Investment Authority,  e o California university Pension Fund que estão com a Certares Management.

A sociedade gestora de fundos norte-americanos, a Certares Management, é gerida e foi fundada pelo ex-responsável pela sala de mercados do JP Morgan Chase & Co e veterano na gestão de fundos de private equity, Greg O’Hara.

Os fundos são assim donos do grupo Mystic Investment em 40%. O fundo norte-americano Certares adquiriu essa participação da holding Mystic Invest, em maio de 2019, por 250 milhões de euros, segundo uma notícia da revista “Exame”.

A operação concluída no início de maio de 2019 permitiu que a Mystic Invest antecipasse, no dia 13 desse mês, um pagamento obrigacionista de 50 milhões de euros sujeito a uma taxa de 3,6%, segundo avançou o Expresso na altura.

Na sequência do negócio, a Mystic Invest ficou avaliada em 625 milhões de euros, refere o “Jornal de Notícias”. Embora tenham por objectivo uma parceria estratégica, o fundo Certares e a Mystic Invest farão uma avaliação à sua cooperação dentro de cinco a sete anos, no caso do fundo querer vender a sua participação, segundo notícias da altura.

A revista “Exame” avançava que o negócio só abrangeu a componente marítima das empresas de Mário Ferreira, deixando de fora a restante actividade do empresário no imobiliário e na hotelaria, nos helicópteros e no museu World of Discoveries.

Debaixo da holding que o empresário vendeu 40% estão empresas como a Douro Azul, a Nicko Cruises ou a Mystic Cruises USA NEW.

Os 250 milhões obtidos com a venda da posição minoritária de 40% na Mystic Invest Holding, segundo notícias de maio de 2019, permitiu reforçar o capital e provisões da companhia e investir noutros negócios.  Isto é, desses 250 milhões de euros, 175 milhões reforçaram os capitais e a expansão da holding, permitindo alargar a sua actividade a outros continentes, e os restantes 75 milhões foram absorvidos pela Pluris Investments. Foi com este dinheiro que Mário Ferreira investiu na compra dos 30,22% da TVI e cujo investimento somou 10,5 milhões de euros (incluindo dívida).

Os outros negócios de Mário Ferreira: media, seguros, aviação e imobiliário

Mário Ferreira não tem previsto reforçar o investimento na comunicação social, onde, através da Pluris Investments, tem também 8% do site “Eco”, apurou o Jornal Económico. Para além da TVI e da pequena participação no “Eco”, o empresário, dono da Douro Azul, tem ainda uma participação de 2,07% na Cofina, de acordo com informação disponibilizada no site da empresa, que refere que as 2.125.200 ações são “imputáveis a Mário Nuno dos Santos Ferreira (75.200 a título pessoal e 2.050.00 detidas pela sociedade Pluris Investments”.

Mas não é só nos media que Mário Ferreira apostou para “diversificar o investimento”. A Pluris Investments tem 7% da seguradora Caravela. Mário Ferreira, o grupo Violas e o grupo Quintas controlam 21% da seguradora.

A Caravela Seguros, que tem como CEO Luís Cervantes, tem desencadeado iniciativas de tentar chegar a um acordo com a Associação Mutualista Montepio Geral para comprar a seguradora Lusitânia que Virgilio Lima já admitiu poder vender parcialmente, apurou o Jornal Económico.

Confrontado pelo Jornal Económico com as tentativas da Caravela comprar a Lusitânia,  Mário Ferreira remeteu para o CEO da seguradora declarações sobre essa operação. Também a Associação Mutualista recusou comentar eventuais negociações.

Mário Ferreira é ainda acionista de referência (17%) do maior broker nacional, a SabSeg e tem uma companhia de aviação privada.

O grupo tem desde cruzeiros fluviais até cruzeiros de mar, tem hotéis e resorts, incluindo parques temáticos e passeios de helicóptero, até o turismo espacial. Mas tem a área imobiliária.  As empresas do Grupo Pluris no setor imobiliário, dedicam-se ao desenvolvimento de projetos e à gestão de ativos no Porto e em Vila Nova de Gaia, que vão desde espaços urbanos de estacionamento automóvel a escritórios e restauração.

No início do ano Mário Ferreira ficou com 30,22% da TVI por 10,5 milhões de euros. Os outros acionistas da Media Capital são a Prisa e o Abanca com 5,4%.

O “Expresso” deste sábado avançou que a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) estão a avaliar se há alguma alteração de controle da dona da TVI, com a entrada de Mário Ferreira para a estrutura acionista da Media Capital.

A Prisa continua como acionista maio­ritária da proprietária da TVI, com 64,47% do capital. O Expresso relembra que, quando Mário Ferreira entrou na Media Capital, através da holding Pluris, assinou um acordo com a Prisa que define, por exemplo, que nenhuma das partes venderá as posições até ao final deste ano.

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