Marques Mendes culpa Governos de PS, PSD e CDS de “engordarem o porquinho da EDP para fazerem encaixe financeiro” na privatização

Marques Mendes considerou “exagerada” a suspensão de funções de António Mexia e de João Manso Neto da liderança da EDP e da EDP Renováveis e vincou que foi “decretada a morte cívica e profissional de duas pessoas que nem estão acusadas”.

Luís Marques Mendes acredita que, no caso da EDP, houve “provavelmente rendas excessivas” e disse que a “culpa” foi de vários Governos.

No seu espaço de opinião semanal na SIC, o comentador político abordou a suspensão de funções de António Mexia e de João Manso Neto, presidentes executivos da EDP e da EDP Renováveis, respectivamente, decretada esta semana pelo juiz Carlos Alexandre, a pedido do reforço das medidas de coação pelo Ministério Público (MP) aos dois arguidos do ‘caso EDP’.

Marques Mendes não quis entrar em questões jurídicas, mas frisou que a culpa das rendas excessivas foram dos Governos. “Vários Governos — PS, PSD e CDS — durante anos andaram a engordar o ‘porquinho’ da EDP para depois, na privatização, fazerem um grande encaixe financeiro à custa dos consumidores”, disse.

O comentador político identificou ainda situações que considera serem “muitas estranhas” no ‘caso EDP’. Abordando especificamente a suspensão de funções de Mexia e Manso Neto, Marques Mendes disse que a sua “posição de princípio é que pessoas que são condenadas nos tribunais, porque há provas claras e sentenças a condená-las. Já não acho nada bem uma pessoa condenada na praça pública através de uma medida de coação”.

Neste sentido, o comentador política considera que a suspensão de funções dos dois executivos do Grupo EDP foi “exagerada”. “Na prática é decretada a morte cívica e profissional de duas pessoas que nem estão acusadas”, salientou.

Marques Mendes disse que o MP está a demorar “uma eternidade” para deduzir uma acusação num processo que já dura há oito anos e que não fez sentido reforçar as medidas de coação aplicadas a António Mexia e a João Manso Neto. “São arguidos há três anos, com termo de identidade e residência. De repente passam para uma medida tão radical como esta que foi aplicada. E pergunta-se: o que é que aconteceu assim de tão substancialmente grave para passar do oito para o oitenta”.

O comentador político questionou ainda porque é que o MP pediu nesta altura o reforço das medidas de coação neste processo que já conta com quatro juízes de instrução — Ivo Rosa, Ana Peres, Conceição Moreno e agora Carlos Alexandre.

“Com os três juízes anteriores nunca o Ministério Público (MP) se lembrou de rever as medidas de coação. Porquê só agora? E dizem que isto é porque há perigo de fuga e de perturbação do processo. Se tivesse que fugir, já tinham fugido antes, já são arguidos há três anos”, disse Marques Mendes.

“É tudo muito estranho. Se o MP acha que de facto há provas nesse sentido, que faça uma acusação”, vincou.

“Processo de sucessão de António Costa já começou”

Luís Marques Mendes abordou ainda a situação política em que o primeiro-ministro, António Costa, se encontra dentro do PS e frisou que “o processo de sucessão de António Costa à frente do partido “já começou”, o que está a minar a sua autoridade.

O comentador opinou que quando os “dois delfins” de António Costa — Fernando Medina e Pedro Nuno Santos — se demarcaram recentemente de posições tomadas pelo primeiro-ministro, deram início ao processo de sucessão do secretário-geral do PS.

Na semana passada, Fernando Medina denunciou as falhas no combate à pandemia e, esta semana, Pedro Nuno Santos demarcou-se de António Costa quando disse que se não houvesse um candidato do PS às presidenciais votaria num candidato apresentado pelos partidos de esquerda.

Para Marques Mendes, as declarações de Pedro Nuno Santos, que é o ministro das Infraestruturas e da Habitação, encerram “três problemas”.

“Ele tem a ambição de ser líder depois de António Costa, mas as declarações dele desta semana foram de um ministro a discordar de um primeiro-ministro. Quem conhece a história nacional, isto dá sempre asneira”, disse Marques Mendes.

Depois, o comentador político vincou que “António Costa começa a perder autoridade. Quando se começa a falar da sucessão, perde a autoridade. É um problema sério para António Costa”.

E, o terceiro problema identificado, envolve os dois governantes. “Os dois vão ter de conviver no Governo enquanto este durar. Pedro Nuno Santos não pode sair do Governo, porque se tomar a iniciativa de sair, é um ‘suicídio’. Mas o primeiro-ministro também não pode tirar, porque se o tirar, com o peso que Pedro Nuno Santos tem dentro do partido, criaria um problema acrescido”, defendeu o comentador político.

“Portanto, vamos ter aqui uma relação de paz envenenada. E é por isso que Carlos César veio dizer logo a seguir que António Costa ‘está aí para as curvas’, que não haveria sucessão tão cedo”, concluiu.

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