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Médio Oriente e bancos centrais penalizam bolsas

O recrudescimento do conflito no Médio Oriente, a par de bancos centrais mais hawkish, ameaça reverter a tendência de alta dos índices acionistas.
20 Março 2026, 08h18

Por cada dia que o estreito de Ormuz permanece praticamente bloqueado, devido à guerra no Médio Oriente, os preços dos combustíveis fósseis acentuam a sua subida, reacendendo os riscos inflacionistas. Esta ameaça de aumento dos preços no consumidor endureceu, esta semana, o discurso dos principais bancos centrais, nas primeiras reuniões após o início do conflito, a 28 de fevereiro, elevando a probabilidade de um regresso às políticas monetárias restritivas, com novas subidas das taxas de juro. O recrudescimento do conflito no Médio Oriente, a par de bancos centrais mais hawkish, ameaça reverter a tendência de alta dos índices acionistas.

Esta semana, a cotação do petróleo subiu cerca de 15%, tanto o Brent de Londres como o WTI dos EUA, enquanto o TTF holandês, principal referência do gás natural na Europa, valorizou quase 25%. Já o gás natural nos EUA, o Henry Hub, apesar da sua abundância sobe 10% desde o início do conflito. Estas subidas das matérias-primas energéticas impulsionam os preços da gasolina e dos combustíveis fósseis para aquecimento, pressionando o rendimento disponível das famílias, ameaçando impulsionar a inflação. Em sentido inverso, um dos principais barómetros da atividade económica, o cobre, perdeu 10% desde o início do conflito, sinalizando desaceleração. A evolução divergente destes números altera o quadro macroeconómico, marcado por mais inflação e menor crescimento, influenciando as decisões dos bancos centrais.

A Reserva Federal dos EUA, na reunião de 18 de março de 2026, confirmou uma postura cautelosa. O banco central manteve as taxas de juro no intervalo 3,50% a 3,75%, refletindo a necessidade de controlar a inflação, ainda acima da meta de 2%. As projeções apontam para um crescimento do PIB real de 2,4% em 2026, mais uma décima do que em dezembro. A taxa de desemprego deverá manter-se relativamente estável, em torno de 4,4%, sinalizando um mercado de trabalho mais frágil. A inflação continua, no entanto, a ser a principal preocupação. A Fed estima um PCE de 2,7% em 2026, uma revisão em alta de 0,3 pontos percentuais face a dezembro, embora antecipe uma desaceleração para 2% no longo prazo. Neste contexto, a Fed prevê apenas um corte de juros este ano, de 25 pontos base, evidenciando prudência face aos riscos, incluindo tensões geopolíticas e a subida dos preços do petróleo. No geral, o relatório da Fed aponta para uma economia sólida, mas sujeita a elevada incerteza e a pressões inflacionistas persistentes. A taxa de juro neutral subiu uma décima, para 3,1%, corroborando uma política monetária em território restritivo, para assegurar o regresso da inflação ao objetivo de 2%.

Na reunião desta semana, o BCE manteve a taxa diretora em 2%, como esperado, numa decisão unânime. Christine Lagarde afirmou que, embora o banco central esteja bem posicionado, a economia da Zona Euro enfrenta um contexto desfavorável. Os riscos de desaceleração aumentaram, com revisões em baixa do consumo e do investimento, num cenário em que a guerra no Médio Oriente pressiona as matérias-primas, reduz o rendimento real e afeta a confiança. Ainda assim, o crescimento tem sido sustentado pelos serviços, mantendo-se o consumo privado como principal motor. O BCE reviu o crescimento para 2026 de 1,2% para 0,9%. Por outro lado, a tendência da inflação é de alta no curto prazo. Apesar da estabilidade da inflação subjacente, os preços da energia são um fator de risco e um agravamento do conflito poderá intensificar este efeito, sobretudo se aumentar as expectativas de inflação e dos salários. As projeções dos preços no consumidor foram revistas em forte alta de 1,9% para 2,6%. Neste contexto, o BCE mantém uma abordagem dependente dos dados e decidida reunião a reunião.


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