Memória

A historiadora Maria de Fátima Bonifácio saiu do espaço público. Talvez daqui a seis décadas algum seu bisneto, ao pretender saber dos costumes portugueses no princípio do séc. XXI, consiga saber o que aconteceu.

Há cerca de seis meses, acabados de entrar no Verão de 2019, a historiadora Maria de Fátima Bonifácio escreveu um artigo no qual, entre outras coisas, sustentou que “nem africanos nem ciganos fazem parte de uma entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de cristandade”. Na altura, e durante 15 dias, chamaram-lhe literalmente tudo o que de imaginar se possa (e até do que nem sequer imaginávamos).

Como o episódio ocorreu há muito tempo, recordo: “Delira”, “não fornece quaisquer dados da área da sua competência”, “chumbaria também em História”, “é uma declaração de ódio”, “racista”, “fascista”. “Fraude”. “Inconstitucional”. “Ignorante”. “Mentirosa de má-fé”, “sinistro”, “cospe e insulta”. “Nada sabe do que está a escrever”. “Abusa do espaço público”, “insulto a milhões de pessoas”.

Não tenho lembrança de alguma vez ter assistido a um linchamento público tão violento como o que então ocorreu. Sucede que no meio dessa algazarra alguém encarnou a figura de Fouquier-Tanville (o sinistro acusador na revolução francesa) e decretou: “Tem que pagar pelo que fez”! Não se recordam? É normal, já lá vão seis meses. Foi então apresentada uma queixa-crime por violação do Artº. 240 do Código Penal (crime de discriminação e incitamento ao ódio e à violência).

E o que é que se soube até hoje? Rigorosamente nada, para além de termos ficado privados de ler as sempre estimulantes crónicas da Profª. Fátima Bonifácio, que entretanto saiu mesmo do espaço público.

Mas essa era a única coisa que importava saber no meio dos destroços. Como as opiniões da historiadora (desta ou de qualquer outro cidadão) são opiniões (por erradas, mal fundamentadas ou radicais que possam ser) e não actos criminosos, qualquer queixa penal nesta matéria só podia ter um único destino se a nossa magistratura quisesse preservar a liberdade de imprensa (e já agora que a historiadora se mantivesse no espaço público): ser imediatamente arquivada.

Talvez daqui a seis décadas algum bisneto da historiadora, ao pretender saber dos costumes portugueses no princípio do séc. XXI, consiga saber o que verdadeiramente aconteceu…

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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