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Mercado pede agilidade de processos e previsibilidade para investir

Em resposta ao repto para participarem nas soluções para pôr fim à crise habitacional, os agentes do mercado declaram-se prontos, mas pedem que quem governa faça a sua parte: simplifique processos.
31 Janeiro 2026, 09h00

Existe vontade para investidores e promotores desenvolverem projetos de habitação, também há financiamento disponível, mas falta um fator essencial para que os projetos se concretizem: previsibilidade regulatória e legislativa que dê segurança a quem investe no longo prazo.

“Os bancos financiam ou olham para a promoção imobiliária e analisamos fundamentalmente três tipos de riscos: de execução, que nós conseguimos medir e que conhecemos; se a construção está controlada, se o orçamento é adequado, se a empresa que vai construir tem condições; avaliamos esse risco. Depois o risco de comercialização, sabemos onde é que é o mercado, quem é que são os clientes potenciais, qual é o preço que está a ser praticado; e nós financiamos esse risco”, explica Luís Ribeiro, administrador e Chief Commercial Officer Corporate do Novobanco. Mas há um último risco. “É o risco de licenciamento e que em Portugal eu penso que nenhum banco hoje tem condições de financiar porque um licenciamento pode demorar entre dois e 15 anos”, diz.

Benedita César Machado, Chief Real Estate Sales, Marketing & Communications Officer da Arrow Global, reforça esta ideia: “Não há falta de vontade de investir ou de capital”, diz. “O problema está na falta de segurança, na estabilidade do quadro regulatório e legislativo. É que os investidores se não sentirem estabilidade e clareza desistem”, avisa.

Ambos participaram no painel sobre a resposta do mercado ao choque fiscal e processual que o Governo tem em curso para responder à crise habitacional, inserido na conferência promovida pelo Jornal Económico. E esta foi a tónica. Sim, os promotores querem investir, mas precisam de saber com o que contam, principalmente em projetos como a construção para arrendamento (build to rent, na terminologia anglo-saxónica), naturalmente de longo prazo.

À necessidade de previsibilidade, Hugo Santos Ferreira, presidente da Associação Portuguesa de Promotores e Investidores Imobiliários (APPII) junta a necessidade de simplificação, para reduzir tempo de construção e custos, para que, “mais cedo ou mais tarde, os preços da habitação comecem a descer”. Contudo alertou para não se sejam criadas “leis frankenstein” nos detalhes legislativos, quando está a ser discutido na Assembleia da República o programa Construir Portugal e outras propostas se seguirão.

“O setor há cinco décadas que reclamava as medidas que se tornaram prementes e o Governo esteve bem, teve coragem”, diz Hugo Santos Ferreira. “O setor agora deve unir-se, mas vamos ver na prática, nas portarias, nos detalhes, é aí que se vê a luz do dia”, alertou. “Não liguem o complicómetro”, pede ao decisor político.

Tempo e compromisso
Todos percebemos, agora, o desfasamento que existe no mercado entre oferta e procura, que já deveria ter sido antecipado. “Era expectável o crescimento do turismo em Portugal e a redução dos agregados familiares já acontecia há algumas décadas, isso indiciou que a procura estava lá e agora chegámos a uma altura em que não há oferta”, diz Luís Ribeiro.
A construção não se concretiza repentinamente, portanto, o gestor considera que este ano não veremos mudanças. “Vai manter-se parecido com o que está agora. A procura dos jovens por habitação tem suportando o preço das casas mesmo colmatando a redução da procura, por estrangeiros. Por isso, os preços das casas não vão sofrer grandes alterações, mesmo existindo um aumento de licenciamentos, isso não terá impacto este ano”, diz.

Agora, para o futuro, o panorama é diferente. “Os bancos aumentaram o financiamento da promoção imobiliária em 30%. Temos liquidez, haja bons projetos que estamos aqui para os financiar”, diz Ribeiro, que considera “fundamental alinhar todos os agentes económicos e investir na transparência da comunicação”.

“No final do dia, o investimento na habitação só aumenta com a confiança dos agentes económicos”, diz.
Tanto no privado, como no público e, ainda, nas parcerias. Santos Ferreira dá como exemplo a forma como a Comunidade de Madrid tem estado a apostar na construção para arrendamento para a classe média. “Madrid tem 30 mil casas em construção, numa parceria público-privada, e já alugou oito mil casas. A comunidade foi perguntar aos promotores como se faz e fez uma lei ajustada ao mercado”, conta.

O positivo é que os agentes deste setor nunca estiveram tão mobilizados como agora para resolver o problema da habitação, considera Benedita César Machado. “Acreditamos que através de soluções diferentes fazemos parte da solução”, diz.
A Arrow está presente em todos os elementos da cadeia de valor e segmentos, incluindo a habitação acessível, através da Nexor, uma empresa ciada em parceria com o Grupo Imobiliário GFH e dedicada à prestação de serviços de gestão e promoção de ativos imobiliários, centrada em soluções para este segmento.

“Estamos a construir 300 apartamentos nas regiões de Gaia e Setúbal. Há ainda mais 200 em aprovação e outros em pipeline”, diz. “A Nexor é um exemplo positivo se quisermos todos fazer parte desta solução. Estamos num momento em que os agentes nunca estiveram tão mobilizados para resolver estes desafios”, acrescenta. O objetivo é construir mais de 2.250 casas em Portugal até 2030.

“Há muitos promotores imobiliários que na última década estiveram a fazer o segmento alto que estão a virar-se para a classe média. Agora é necessário gerir expetativas, temos de permitir que a habitação para a classe média ganhe escala e os preços, no futuro, poderão até baixar”, reforça Hugo Santos Ferreira. “O setor imobiliário está comprometido”, garante.
Assim haja condições para que se concretize a oferta.


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