Mexia diz que EDP vai investir 12 mil milhões nos próximos quatro anos

Questionado pelo entrevistador Vítor Gonçalves, se não viu alguma vez que podia ser suspeito o pagamento à Universidade que contratou Manuel Pinho, ex-ministro da economia, para ser lá professor, António Mexia, lá admitiu que “hoje não o faria, sabendo a falsa percepção que se criou”.

António Mexia, CEO da EDP, na entrevista à RTP3, explicou que a alteração das regras estabelecidas na privatização da EDP perturbou os investidores.  “Particularmente aqueles a quem foram dadas garantias no âmbitos dos processos de privatização, incluindo o último”, disse o gestor numa clara alusão à China Three Gorges. Na Grande Entrevista da RTP 3, o presidente da EDP lembrou que a empresa vai investir 12 mil milhões de euros nos próximos quatro anos, “na distribuição, no solar, no vento”.

“O setor da energia precisa de muito investimento e para isso é preciso confiança”, disse o gestor reforçando que é preciso estabilidade nas regras do jogo. “A EDP foi durante a última década o maior investidor em Portugal, foi também o maior investidor português no estrangeiro”, lembrou.

Numa altura em que se aproxima a Assembleia Geral decisiva da empresa que está quase há um ano sob a pendência de uma OPA da China Three Gorges, Mexia diz que as alterações das regras da privatização pelo Governo, perturbou os investidores.

Mas avisa já que “com ou sem OPA a EDP será sempre uma grande empresa pela sua capacidade em se tornar global, não depende da OPA”.

“A OPA teve mérito”, disse Mexia num lapso que revela já a ideia de que a oferta dos chineses morreu, mas emendou imediatamente dizendo que “para a semana os acionistas terão oportunidade de dizer o que pensam sobre a OPA”. Como é já conhecido a CMVM enviou um comunicado onde diz que se não ficar clarificado o destina na Oferta da China Three Gorges na AG, terá tudo de ser clarificado no prazo máximo de 45 dias.

Esta é a segunda entrevista da alta administração da EDP num prazo de uma semana (o Chairman, Luís Amado, deu uma entrevista à Antena 1/Negócios). Isto apesar de estar a decorrer uma Oferta Pública de Aquisição que normalmente limita o que os responsáveis da visada podem dizer publicamente. O que poderá ser um sinal de que não acreditam na OPA.

“Partilhamos com a CTG a visão de que o Brasil é estratégico, e por isso a EDP no Brasil não está à venda, estamos é abertos a ver o que podemos fazer mais com o nosso parceiro estratégico que é a CTG”, disse ainda o CEO.

Ainda sobre projetos futuros, António Mexia lembrou que “o mundo tem que ter, em 2050, 85% da energia gerada a partir de fontes renováveis, estamos a falar do vento e do sol, o que aliás vai mudar todo o peso dos diferentes países, por exemplo África pode ganhar protagonismo, e portanto o offshore eólico vai ser uma área prioritária, porque o mar é um recurso inesgotável, até porque há mais vento no mar. Por isso temos feito parcerias, porque os projetos são de tal maneira grandes que têm de ser feito em parceria”.

“Portugal, não tem plataforma continental se eu quiser fazer no mar tenho de fazer em águas profundas”, explicou adiantando que a EDP tem uma tecnologia que provou suportar vagas no mar de 15 metros (testaram em Portugal) e estão a lançá-la a nível mundial.

Sobre os preços altos da conta de eletricidade, o presidente da EDP disse que “hoje a maneira mais barata de gerar electricidade é através das renováveis”, disse Mexia contrariando o senso comum que lembra os subsídios às renováveis. “O preço da energia global em Portugal e Espanha já desceu porque a Península Ibérica desenvolveu energias renováveis”, adiantou.

Portugal é o sexto país com a energia mais cara da Europa no consumidores domésticos. Mexia explicou que nos consumidores industriais “estamos abaixo da média europeia e nos domésticos passámos a estar acima da média europeia quando houve um aumento do IVA”.

“A televisão publica e rádio pública não deviam estar na fatura da eletricidade”, disse ainda na entrevista à RTP.

“A EDP sempre defendeu a existência de uma tarifa social”, rematou.

Sobre a crise dos combustíveis que se fez sentir em Portugal com a greve dos camionistas de materiais perigosos, António Mexia lembrou que “isso nunca poderia acontecer no mercado da energia elétrica porque sempre houve investimentos necessários para que houvesse redundâncias, sempre se investiu em reservas”.

O presidente da EDP disse ainda que “a decisão de não construir a Barragem do Fridão é da exclusiva responsabilidade do Governo, em momento algum a EDP equacionou não a construir sem que houvesse a devolução do investimento que lá fizemos. É como pagar um sinal para uma casa e não receber nem casa nem o sinal”. Por isso a EDP vai exigir os 218 milhões de euros que pagou ao Estado para ter o direito de construir a Barragem, porque está previsto num contrato. No contrato está prevista uma arbitragem que resolve “este assunto num prazo de um a dois anos”.

“É uma arbitragem nacional com três árbitros. Há um contrato, queremos respeitar o contrato”, disse o CEO que recusa que haja um braço de ferro com o Governo, e admitindo mesmo chegar entretanto a acordo com o Executivo.

Sobre a conclusão da Comissão Parlamentar de Inquérito que conclui preliminarmente que houve 510 milhões de rendas excessivas pagas a mais à EDP, Mexia diz que “as conclusões podiam ter sido escritas antes do inquérito”.

Reforçando que o conceito de rendas excessivas “é um conceito inventado em 2012, no fim da presença do Estado na EDP”.

“O relatório preliminar recicla ideias de 2003 e conclui que para a existências dessas rendas a lei de 2004 teria de ser outra”, disse Mexia.

“Durante uma década o regulador não levantou problemas anualmente sobre o assunto, e só viemos a saber dos relatórios anuais, via Parlamento, porque um deputado os pediu. Esses relatórios estavam lá perdidos no site e nós refutámos nessa altura”, disse o CEO.

Mexia remete ainda que as rendas inerentes à passagem dos CAE para CMECs foram negociadas e impostas pela Comissão Europeia.

Sobre as concessão das barragens sem concurso à EDP, Mexia respondeu com o mercado ibérico, onde a empresa que dirige tem 14% da geração de eletricidade, ou seja, “somos relativamente pequenos”.

“Naquele momento o que poderia estar a concurso era inviável. Quem é que paga uma coisa que só tem acesso 10 anos (depende das barragens e do fim dos contratos) depois?”, disse.

António Mexia lembrou que a EDP em 2007 veio a pagar mais 759 milhões de euros do que estava previsto, “o que beneficiou o Estado”.

O relatório da CPI refere que o Estado foi prejudicado em 581 milhões na concessão destas barragens.

Sobre Central de Sines, o relatório diz que o Estado devia ser compensado por a EDP manter em funcionamento a central e obter lucros com isso, nomeadamente baixando as tarifas da energia, Mexia voltou à metáforas, para dizer que “é o mesmo que eu vender o bolo e comê-lo”.

“Quando o Estado era dono da EDP fixou umas regras e depois vendeu a empresa e desde o inicio da privatização, em 1997, foi buscar 20 mil milhões de euros” , referiu Mexia.

“Não existe o lobby da energia”, afirmou o CEO da EDP.

“A privatização da EDP foi sempre por capitalismo popular, quando o Estado mantinha uma participação, e depois com investidores institucionais, nunca negociou com grupos privados”, recordou Mexia.

António Mexia foi constituído arguido por causa de a EDP ter pago um curso nos EUA ao ministro da Economia, alegadamente em contrapartida das decisões que tomou em 2007 em “benefício da EDP”.

Uma queixa em Bruxelas e no DCIAP em 2012 deu origem a este processo, disse Mexia que lembrou que Bruxelas não viu nenhum favoritismo do Governo à EDP em 2007. “Bruxelas investigou e disse que não havia problema nenhum”.

Em 2007 o que aconteceu foram os contratos de implementação dos CMECs e foi a questão do domínio hídrico (concessão das barragens). Mexia diz que a EDP foi prejudicada na passagem dos CAE para os CMECs em mais de 700 milhões. No domínio hídrico, se a EDP tinha o direito consagrado em 2004 de ficar com as barragens pelo valor residual que era de cerca de 1,4 mil milhões, a EDP pagou isso e mais 759 milhões do que o previsto na lei, “logo não houve beneficio”.

Sobre o investimento na Universidade da Columbia, e o facto de Manuel Pinho ser contratado pela universidade norte-americana e de a EDP patrocinar o curso, Mexia diz que não foi a EDP a escolher o corpo docente, e que 90% do investimento da empresa de 1,2 milhões de euros, foi para a Universidade e “só 10% teve a ver com a docência de Manuel Pinho”.

Questionado pelo entrevistador Vítor Gonçalves, se não viu alguma vez que podia ser suspeito esse pagamento à Universidade que contratou Manuel Pinho, ex-ministro da economia, para ser lá professor, António Mexia, lá admitiu que “hoje não o faria, sabendo a falsa percepção que se criou”.

“Se não fossem os Estados Unidos, a EDP não era o que é hoje, um líder mundial das energias renováveis”, disse Mexia para explicar a necessidade de ganhar capacidade de intervenção nos EUA.

“Somos também o terceiro maior nos EUA, e para isso foi preciso na altura ter visibilidade sobre o nosso investimento e sobre o debate das energias renováveis que havia na altura na Califórnia, mas não em Nova Iorque e Washington, e foi isso que fizemos”, disse o gestor.

António Mexia lembrou que quando o Presidente Obama quis discutir o futuro da energia nos EUA chamou à Casa Branca cinco empresas, quatro eram americanas e a quinta “fui eu enquanto presidente da EDP”. Isso faz-se “dando a credibilidade ao contributo no debate”.

(atualizada)

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