Migração, o ano zero da UE

Nas eleições europeias teremos de escolher homens e mulheres que olhem para a migração como uma oportunidade e não como um perigo. Que apostem numa Europa renovada que se abra ao mundo que ajudou a construir.

Um ano com duas eleições europeias – para o Parlamento Europeu e decorrente destas para a Presidência da Comissão – seria sempre um ano de alterações no sistema de uma Europa unida. Se aliarmos  a isto um Brexit que teima em não acontecer, 2019 pode bem vir a tornar-se o ponto de não retorno da construção europeia.

Sobre a saída ou a permanência do Reino-cada-dia-menos-Unido da UE, já tudo e nada foi escrito, dito ou comentado. O caos é tal que não restam grandes dúvidas que no final será feita nova consulta popular e (aceitam-se apostas!) o “sim” ganhará. Mais que não seja para terminar com esta desastrosa falta de soluções que um artigo que se pensava nunca vir a ser utilizado num Tratado, feito com o objectivo de tornar mais coesa e forte a União, veio trazer.

Além disso, a representatividade do referendo efetuado cujo resultado – 51,89% a favor da saída contra 48,11% a favor da permanência, e que teve uma grande abstenção de participação jovem – é discutível, transcorridos que estão três anos e analisados todos os prós e contras, agora de forma bem mais real e objectiva. Se a isto juntarmos a natural alteração de composição do eleitorado, bem como o prazo dado pela União para uma decisão final por parte do Reino Unido, creio não restarem grandes dúvidas quanto ao desenlace.

No entanto, nada permanecerá igual. Desde logo a questão dos fluxos migratórios para a Europa que esteve na base da decisão de saída e que tem vindo a ser discutida um pouco por todos os restantes países, não só não se encontra resolvida como tem vindo a ser esgrimida de forma populista e demagoga por partidos que vão assumindo cada dia mais vigor num espaço que foi criado como de inclusão e liberdade.

Evidentemente que a Europa não pode acolher todos aqueles que a procuram em busca de um local seguro onde possam fazer a sua vida. Mas não será com soluções do tipo populista (“A Europa para os Europeus” – quem são os europeus afinal?), ou autista, ignorando a situação, que se irão resolver os fluxos migratórios.

Quer a Europa em geral quer Portugal em particular estão ainda bem longe de um número excessivo de migrantes. Repare-se na nossa curva demográfica e nos estudos que apontam para os 70 anos como a idade de reforma, o que, a ser implementado,  nos tornaria no país da Europa com a força de trabalho mais idosa e, naturalmente, menos produtiva e eficaz. Precisamos de imigrantes, de renovar o nosso tecido produtivo e demográfico. Mas precisamos, sobretudo, de uma migração regular e de qualidade e isso só se consegue com a cooperação dos países de origem.

O retrato diagnóstico desses países está há muito desenhado: população maioritariamente jovem que, na sua maioria, se confronta diariamente com a fome e falta de oportunidades, originada em grande parte pelas alterações climáticas em conjugação com sistemas económicos e educacionais deficientes.

Daí que diversos organismos ligados à problemática das migrações estejam já a elaborar documentos e recomendações para os próximos cinco anos, a entregar ao futuro Presidente da Comissão Europeia. Recomendações que passam exactamente pela questão da cooperação para travar a migração económica irregular, permitindo que esta se faça de forma controlada, apoiada num sistema de educação que lhe confira qualidade e especialização, e pela criação de um sistema comum de asilo de maneira a facilitar e a tornar mais igualitário o acolhimento de refugiados nos diversos países.

Com efeito, e analisando os últimos estudos produzidos pela Fundação Bill Gates sobre  Pobreza, a pressão dos fluxos migratórios sobre a Europa não deixará de aumentar a não ser que se faça um trabalho sério, consequente e em parceria com os países de origem, a montante.

O estudo prevê que, em 2050, 40% da população pobre se concentre em dois países: Nigéria e Congo. Caso não sejam definidas medidas concretas de cooperação e desenvolvimento, sobretudo nestes países, a pressão sobre a Europa será incontrolável. E Portugal não estará isento dada a sua situação geográfica. Daí que as próximas eleições europeias sejam tão importantes!

Cabe-nos escolher aqueles cujas ideias sobre este tema sejam claras, reflictam uma postura humanista mas também uma visão política e económica de futuro. Ideias que não agitem bandeiras de medo nem construam muros físicos ou mentais. Teremos que escolher homens e mulheres que olhem para a migração como uma oportunidade e não como um perigo. Que apostem sem receio numa Europa renovada que, sem renegar os seus valores e princípios, se abra ao mundo que ajudou a construir.

Tal como não poderemos impedir um rio de correr, também não poderemos estancar estes movimentos demográficos. Depende de nós torná-los na oportunidade de construir uma Grande Europa.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

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