Mito ou realidade: PIB português cresce sempre que o SL Benfica é campeão?

Analisámos a evolução do PIB nacional junto da Pordata e do INE entre 1994 e 2018. E encontrámos um denominador comum: sempre que a economia portuguesa entrou em recessão, o FC Porto foi campeão, embora a crise da dívida soberana e a troika também tenham tido uma palavra a dizer.

SL Benfica

Cento e três golos e trinta e quatro jornadas depois, o SL Benfica venceu o trigésimo-sétimo campeonato da sua história, no passado sábado. Fundado em 1904 por Cosme Damião, o ‘clube da Luz’ aumentou a diferença que tem para os principais rivais: o FC Porto tem 28 campeonatos enquanto o Sporting CP tem 18.

Pode haver argumentos para todos os lados, ainda para mais quando o tema é futebol, mas parece ser um facto difícil de contradizer que há mais portugueses que levam a ‘águia’ ao peito por comparação com o ‘leão’ ou o ‘dragão’. Ao longo da sua história, o legado deixado por Cosme Damião entrou na chamada ‘cultura popular’.

Por exemplo, ainda hoje em dia é comum ouvir-se na rua ou nos cafés de bairro que o SL Benfica “era o clube do regime” durante o Estado Novo de António Salazar que, diz-se, proibiu a transferência de Eusébio da Silva Ferreira para o Inter de Milão, nos anos 1960, por ser considerado património nacional.

As vitórias tingidas a encarnado também poderão ter contribuído para o crescimento da massa adepta do SL Benfica. Além dos tempos áureos da década de 1960 e 1970 – entre as épocas 1959/1960 e 1976/1977, o SL Benfica venceu 14 campeonatos, contra quatro do Sporting CP, para não falar das duas Ligas dos Campeões ganhas de seguida frente ao FC Barcelona e ao Real Madrid CF – pisaram os relvados da Luz alguns dos futebolistas mais acarinhados pelo povo português: Eusébio, António Simões, Chalana, Néné, João Vieira Pinto, Rui Costa, Preud’homme e, mais recentemente, Simão Sabrosa ou Nuno Gomes (que muitas felicidades deu à Seleção Nacional), entre tantos outros.

Sempre que “o Benfica é campeão, o PIB português cresce”. Será assim?

A certa altura, parece ter-se criado um mito – pelo menos ouvido pelos lados de Lisboa – que dizia que sempre que “o Benfica é campeão, o PIB português cresce”.

Numa análise muito simples – não é preciso um curso em economia ou finanças para isto, apesar de tudo, trata-se apenas de um mito urbano – consultámos a evolução do PIB de 1994 até 2018. Com a exceção do primeiro ano de análise, cujos dados foram retirados da Pordata, todos os dados foram retirados do Instituto Nacional de Estatística (INE).

Contas feitas: não é verdade que o PIB cresça quando o SL Benfica é campeão nacional de futebol.

Em 1994 (época desportiva de 1993/1994), o SL Benfica foi campeão pela última vez antes de um longo jejum de 11 anos. Em 1994, o PIB português cresceu 1,50%.

No ano seguinte, o FC Porto conquistou o primeiro dos cinco títulos que formaram o inédito pentacampeonato. Em 1995, o PIB cresceu 2,31%. E, em 1997 e 1998, anos em que o ‘dragão’ celebrou o ‘tri’ e o ‘tetra’, foram os anos em que a economia nacional mais cresceu no período em análise: 4,43% e 4,79%, respectivamente.

Na viragem para o novo milénio, Augusto Inácio levou Beto Acosta a tornar-se no melhor marcador da primeira liga e devolveu ao Sporting CP o título de campeão, 19 anos depois. O PIB cresceu 3,79%.

Em 2001 foi o ano do Boavista campeão, treinado por Jaime Pacheco. O PIB português cresceu 1,94%, o menor crescimento desde 1994.

A partir daí a tendência do PIB foi descrescente até que, em 2003, no primeiro ano de José Mourinho no FC Porto, a economia portuguesa entrou em recessão (PIB perdeu 0,93%) pela primeira vez no período em análise – aliás, segundo o que demonstra esta análise, parece haver uma coincidência entre o FC Porto ganhar o campeonato e a economia estar em recessão: em 2009 a economia contraiu 2,98% e no tricampeonato entre 2011 e 2013, o PIB cedeu -1,83%, -4,03% e -1,13% (mas estávamos perante a crise da dívida soberana e a intervenção da troika).

No início do tetra do SL Benfica, em 2014, a economia nacional recuperou, coincidindo com o retomar da hegemonia do futebol português pela equipa de Jorge Jesus. Em 2014 a economia nacional cresceu 0,89%, 1,82% em 2015, 1,93% em 2016 e 2,8% no ano seguinte.

Sérgio Conceição devolveu na época 2018/2018 o título de campeão ao FC Porto. O PIB cresceu 2,16%.

Há eventos que explicam melhor a expansão do PIB, e o SL Benfica ser campeão não é uma delas.

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