Montado português: plataforma de investigação recebe prémio internacional

A LTsER, plataforma que investiga esta paisagem natural única, recebeu o ‘Most Striking Case’, atribuído pela primeira vez pela rede Internacional de Investigação Ecológica de Longo Prazo (ILTER).

A LTsER, plataforma portuguesa que investiga numa perspetiva de longo prazo a paisagem única do montado no nosso país, recebeu, no final da semana passada, um prémio internacional, o ‘Most Striking Case’, atribuído pela primeira vez pela rede Internacional de Investigação Ecológica de Longo Prazo (ILTER).

“O montado é uma das paisagens identitárias de Portugal. Moldado pelo Homem ao longo de séculos por atividades como a agricultura, a pastagem e a caça, este ecossistema tipo savana é característico do sul do país e reconhecido pelas vastas extensões de sobreiros e azinheiras dispersas pela paisagem, com uma enorme importância económica, ambiental e cultural para o país. O estudo deste ecossistema, com vista à sua perservação e sustentabilidade, é uma das prioridades de vários grupos de investigação do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais – cE3c, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), reunindo os esforços de um conjunto significativo dos seus investigadores através de projetos nacionais e internacionais”, esclarece um comunicado do LTsER.

O mesmo documento acrescenta que a LTsER foi criada em 2011. O nome vem do inglês: ‘Long-Term Socio-Ecological Research’. Desta forma, a LTsER recolhe, analisa e armazena séries temporais de dados ambientais, sociais e económicos, para desenvolver investigação sobre todos os fenómenos e processos que afetam o montado.

“E o trabalho que tem vindo a desenvolver nestes oito anos foi agora reconhecido a nível internacional com o Prémio ‘Most Striking Case’ atribuído pela rede ILTER, que agrega centenas de sítios de investigação ecológica de longo prazo”, sublinha o referido comunicado.

“O que distingue esta plataforma de investigação é a visão abrangente e de longo prazo que tem deste ecossistema. O montado muda, mas muda devagar: muitos fenómenos associados às alterações ambientais, como as alterações climáticas e no uso do solo, a desertificação e a degradação do solo apenas se conseguem detetar a longo prazo”, explica Margarida Santos-Reis, coordenadora da plataforma LTsER Montado e investigadora do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais – cE3c/FCUL.

A LTsER Montado é um dos quatro sítios/plataformas de investigação ecológica de longo prazo que existem no nosso país, constituindo a rede LTER Portugal.

A rede LTER organiza-se em dois níveis: as plataformas LTSER e os Sítios LTER, sendo que as plataformas abrangem uma área geográfica mais vasta e integram uma abordagem socio-ecológica na sua investigação – daí o ‘s’ na designação LTsER.

“A plataforma LTsER Montado desenvolve a sua investigação conjugando os dados regionais obtidos por deteção remota e bases de dados e estatísticas oficiais com trabalho de campo desenvolvido em cinco sítios de experimentação e/ou monitorização, que representam um gradiente de clima e tipos de solo: a Herdade da Ribeira Abaixo (estação de campo da FCUL), a Companhia das Lezírias, a Herdade da Machuqueira do Grou, a Herdade da Coitadinha e a Herdade da Contenda”, adianta o mesmo comunicado.

Estudar o montado a longo prazo – e numa perspetiva transdisciplinar é um dos prncipais objetivos do LTsER.

Por seu turno, o prémio ‘Most Striking Case’ foi criado pela rede ILTER com o objetivo de distinguir a plataforma com resultados mais marcantes, que só poderiam ser obtidos através de um trabalho de equipa e uma abordagem transdisciplinar e de longo-prazo.

“É essa a abordagem que tem vindo a ser desenvolvida na LTsER Montado, envolvendo investigadores de diversas disciplinas científicas – como biólogos, ecólogos, cientistas sociais e geólogos – e assumindo o envolvimento da população da região e dos decisores políticos”, assinala o comunicado em questão.

“Num dos nossos projetos recentes trabalhámos com as várias pessoas envolvidas no montado – como os donos da terra, gestores, técnicos, associações de caçadores ou de apicultores e cientistas – para identificar e avaliar o que identificam como os principais serviços prestados pelo montado – ou seja, os benefícios que obtemos deste ecossistema. Os produtos derivados do sistema, como a cortiça,  e os serviços de regulação e manutenção foram dos mais valorizados”, explica Inês Teixeira do Rosário , da equipa do LTsER Montado e investigadora do cE3c, na FCUL.

De acordo com a plataforma LTsER, “a sustentabilidade futura do montado depende de uma gestão adequada e de uma visão de longo-prazo, e uma das ações que tem vindo a ser implementada para combater a degradação do sistema é a reflorestação ou a promoção da regeneração natural”.

“Noutro dos seus projetos mais recentes (AdaptforChange), a equipa desenvolveu um modelo que permite avaliar com grande precisão espacial o potencial da regeneração natural ao longo do tempo”, garante o referido comunicado.

“Este modelo mostrou que as zonas com menor exposição solar são as zonas com maior regeneração natural ao fim de 60 anos, e permitiu também ver que este sucesso diminui drasticamente num cenário de alterações climáticas”, explica Adriana Príncipe, um dos elementos da equipa do LTsER Montado e doutoranda do cE3c, na FCUL.

Estas recomendações foram já integradas no Plano de Adaptação de Mértola às Alterações Climáticas por André Vizinho, investigador do cE3c, e colegas.

A LTsER tam cinco bases de atuação preferenciais em Portugal. a primeira é a Herdade da ribeira Abaixo, localizada na margem esquerda do rio Sado, Baixo Alentejo, a sete quilómetros de Grândola e cerca de 100 quilómetros a sul de Lisboa. Tem uma área de 221 hectares.

A Companhia das Lezíria é 0utra das bases da LTsER. Servida pelo rio Tejo, no Ribatejo, cerca de 30 quilómetros a nordeste de Lisboa e a cerca de sete quilómetros de Vil Franca de Xira, tem quase 18 mil hectares de área.

Depois, surge a Herdade da Machuqueira do Grou, também servida pelo rio Tejo, também no Ribatejo, cerca de 100 quilómetros a a nordeste e a cerca de 25 quilómetros de Coruche, com uma área de 2.500 hectares.

Referência ainda para a Herdade da Coitadinha, servida pelo Guadiana, no Baixo Alentejo, a cerca de 200 quilómetros a sudeste de Lisboa e a cerca de oito quilómetros de Barrancos, com uma área de mil hectares.

Por fim, outra das bases da LTsER é a Herdade da Contenda, no concelho de Moura, no Baixo Alentejo, limitada pela fronteira com Espanha e também servida pelo Guadiana, com uma área de mais de 5.200 hectares.

 

Ler mais
Recomendadas

Universidade de Aveiro desenvolve espumas isolantes com base na cortiça

Neste trabalho, foi dado enfoque no isolamento térmico, mas o aumento da flexibilidade que a cortiça proporcionou, pode aumentar a gama de aplicações do material, como por exemplo na absorção de vibrações ou energia sonora.

Confagri receia criação de um superministério da Economia e o fim do Ministério da Agricultura

Secretário-geral Francisco Silva relembra que já em anos anteriores a Confederação se teve de bater pelo fim do Ministério da Agricultura e da Comissão Parlamentar de Agricultura.

Inseticidas com dimetoato colocam abelhas em risco. Proibidos depois de 30 de junho de 2020

Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos concluiu, para todas as utilizações representativas avaliadas, que existe um “elevado risco para os mamíferos e para os artrópodes não visados decorrente do dimetoato e para as abelhas decorrente do dimetoato e do ometoato”.