A temperatura média do planeta não deveria aumentar mais de 1,5ºC até 2100, mas esse limite já foi ultrapassado. Se continuarmos neste caminho, poderemos chegar ao final do século com um aumento próximo dos 3ºC. O problema é que, para além do agravamento das catástrofes naturais que já hoje enfrentamos – chuvas intensas, inundações, tornados, furacões, incêndios, subida do nível do mar – existem consequências diretas para a saúde humana e para a própria sobrevivência das populações, que não podemos ignorar. Para perceber porquê, temos de falar não só da temperatura do ar, mas também da humidade.
O principal mecanismo que regula a temperatura do nosso corpo, garantindo conforto e sobrevivência, é a transpiração. Esse mecanismo funciona melhor quando o suor consegue evaporar, o que acontece mais facilmente quando a humidade relativa do ar é baixa. O nosso corpo troca calor com o ambiente para garantir que a temperatura interna não ultrapassa os 36,5 ºC. Quando isso acontece, dizemos que temos febre. Esta regulação é necessária quer estejamos em atividade física, quer em descanso. Quando suamos, libertamos água que, ao evaporar, arrefece o corpo.
No entanto, se a humidade relativa do ar for muito elevada, próxima dos 100%, essa evaporação deixa de acontecer. Por mais que suemos, não conseguimos arrefecer. É por isso que uma temperatura de 35,5 ºC com 100% de humidade relativa é considerada letal: o corpo deixa de dissipar o calor produzido pelo seu metabolismo, a temperatura interna continua a subir e, após algumas horas a 42 ºC, ocorre a morte.
Estas condições podem ocorrer com diferentes combinações de temperatura e humidade, como por exemplo 40 ºC com 75% de humidade ou 50 ºC com 36%. No entanto, os limites letais são atingidos a valores mais baixos quando estamos no exterior ou a realizar atividade física, porque o esforço e a exposição aumentam rapidamente a temperatura interna do corpo. Além disso, a resistência do organismo ao calor e à humidade diminui com a idade, o que torna as pessoas mais idosas particularmente vulneráveis.
É por isso que as ondas de calor podem facilmente apanhar os cidadãos desprevenidos, e por isso é essencial monitorizar atentamente as condições de temperatura e humidade, garantindo que permanecem dentro de limites seguros para cada pessoa.
Ora, a aceleração do aquecimento global aumenta significativamente o número de dias por ano com temperaturas e níveis de humidade extremos. Com um aumento médio global de 1,5 ºC, estes eventos são muito menos frequentes do que seriam com um aquecimento de 2 ºC e, sobretudo, se nos aproximarmos dos 3 ºC.
Nestes cenários, a probabilidade de ondas de calor letais sobe de forma acentuada e, em algumas regiões do planeta, esses efeitos poderão tornar-se permanentes. Entre as zonas mais ameaçadas estão o Golfo Pérsico, a América Central, o norte da América do Sul, a península Indiana, a costa leste da China e o sudoeste da Ásia, regiões densamente povoadas. A atitude atual, que na prática adia a ação necessária para manter o aquecimento global nos 1,5 ºC, terá impacto rápido e profundo no nosso futuro.
O problema agrava-se porque um aumento médio global de 2 ºC traduzir-se-á, em muitas regiões, em subidas de 3 a 4 ºC, como no Médio Oriente. Isto significa que várias zonas do planeta poderão tornar-se inabitáveis para grande parte da população, que terá de emigrar para sobreviver.
Viver nesses locais só seria possível com climatização intensiva, com efeitos negativos para a sustentabilidade, e com uma gestão rigorosa da água, o que será difícil de garantir. Consequentemente, milhões de pessoas – especialmente no Médio Oriente – poderão deslocar-se em massa para outras regiões do mundo, incluindo a Europa, num período relativamente curto, talvez 10 a 20 anos.
As implicações sociais e económicas desta migração em larga escala ainda não estão a ser devidamente consideradas nem preparadas. Esta é uma forma de perceber a urgência que tem sido sublinhada rumo à COP 30. E, embora a janela de oportunidade esteja a fechar-se rapidamente, ainda podemos agir. Mas só se começarmos agora – e com a determinação que o momento exige.



