Sete em cada dez moçambicanos dependem diretamente dos recursos naturais para viver. Aqui, a terra não é apenas chão, é sustento. O mangal não é paisagem, é vida. Quando o mar avança, a floresta recua, não é apenas o ambiente que muda. É o futuro que se torna mais instável, é o presente que se torna mais difícil.
É neste contexto que o projeto MozambES procura contribuir para uma gestão mais sustentável das florestas de mangal, aliando ciência e conhecimento local. Com base na quantificação dos múltiplos valores deste ecossistema e nos resultados de um programa-piloto de conservação, pretende-se informar políticas que garantam que estas áreas vitais continuem a proteger as populações e a resistir a eventos extremos.
Poucos ecossistemas são tão valiosos como os mangais. São berçários de espécies marinhas, escudos naturais contra tempestades, filtros de carbono e sal, sustentam milhares de famílias que deles retiram alimento, madeira e rendimento. Mas estão entre os mais ameaçados do mundo, vítimas da expansão urbana, da exploração intensiva e da negligência.
Em Nhangau, na província da Sofala, o projeto envolveu cerca de 200 residentes, organizados em 10 grupos de poupança e crédito rotativo existentes na comunidade. A iniciativa aliou compensações financeiras ao restauro ambiental. Os grupos receberam pequenos apoios para gerir atividades ou reduzir encargos de empréstimos. Em troca, cada grupo reabilitou uma área designada da floresta de mangal, assegurando a sua manutenção. Ao colocar as comunidades no centro, o MozambES reconhece o seu papel não como beneficiárias, mas como agentes de mudança. Desde fevereiro de 2024, foram replantados 18 hectares, com uma taxa de sobrevivência elevada. Os resultados são promissores, mas o impacto vai muito além dos números.
Este modelo mostra que a regeneração ambiental só acontece com justiça social. É difícil proteger aquilo a que não temos acesso. É difícil conservar um futuro que nos é negado. Ao envolver diretamente as comunidades, o MozambES não só repõe árvores, reconstrói relações entre as pessoas e o seu território.
Num tempo em que tanto se fala de transições verdes e justiça climática, precisamos de projetos como este, que não impõem soluções, mas constroem pontes. Que compreendem que não há conservação sem inclusão, nem sustentabilidade sem equidade. E que a mudança não acontece só pela consciencialização, mas pela ação.
O mangal ensina-nos a resistir, a crescer em solos difíceis, a proteger os outros.
Talvez devêssemos aprender com ele. Talvez devêssemos começar todos por plantar futuro onde ele parece ter sido arrancado.



