Mulheres, de crise em crise

A deterioração das condições de vida das mulheres não aumentou apenas no último ano. Na mais recente crise financeira e económica que experienciámos há uma década aconteceu o mesmo, prolongando-se por anos a fio.

Nos últimos meses, a maior parte dos debates, conversas e discussões que temos tido versa sobre a crise pandémica. Depois da preocupação sanitária óbvia, têm-se levantado outros aspectos socialmente relevantes. De entre esses, assinale-se o facto de a crise pandémica estar a afectar as mulheres desproporcionalmente em relação aos homens.

Existem outras dimensões de interesse nesta análise. Um impacto negativo que algo como uma pandemia tem nas pessoas não se deve apenas a aspectos de género, mas é sobre essa dimensão que eu gostava de vos convidar a reflectir.

Da abundante investigação feita sobre os efeitos de crises na população sabe-se que, geralmente, as mulheres tendem a estar em posições de desvantagem económica e social. Isto não quer dizer que os homens não sejam afectados por estas situações, como todos sabemos, ainda para mais agora que contamos com um ano disto.

A história de que estamos todos no mesmo barco e no meio da tempestade, ou como não é bem assim, e se estamos todos no meio da mesma tempestade não estamos todos no mesmo barco, e muitos nem em barcos estão.

As mulheres tendem a, maioritariamente, ser responsáveis pelo apoio às crianças que ficam em escola com aulas à distância, a tomarem conta de quem fica doente e a serem ainda mais sobrecarregadas com as tarefas domésticas que se intensificam quando se tem a família fechada em casa: todos têm que comer e vestir roupa lavada. Isto tudo é intensificado porque muitas mulheres têm ainda que assegurar o trabalho que lhes providencia um salário ao final do mês.

Adicionalmente, e não tão raramente como podemos imaginar, estando 24 horas, 7 dias por semana em casa, esta situação aumenta a probabilidade de conflitos entre os membros da família. Esses conflitos podem tornar-se, em muitos casos já eram, violência doméstica. Esta desproporcionalidade de condições dentro da própria casa só aumenta a instabilidade feminina no acesso ao bem-estar físico e psicológico.

Infelizmente, a deterioração das condições de vida das mulheres, em geral, não aumentou apenas no último ano. Na mais recente crise financeira e económica que experienciámos há uma década, o mesmo aconteceu, prolongando-se por anos a fio. Sabemos também, e à semelhança de outras pandemias e surtos pandémicos, outras crises económicas, até mesmo as mais localizadas, que afectaram de maneira muito mais severa as mulheres.

Assim, não só andamos todos aqui há uma série de anos a tentar desviar-nos das consequências da crise financeira e económica, mas sobretudo as mulheres, as mais dependentes, com trabalhos mais mal pagos, têm arcado com um peso tremendo às suas costas. Parece que neste momento se desenham algumas acções governamentais, não sei se lhes vou chamar políticas públicas, através das quais se irá procurar mitigar este terrível impacto. Mas, no dia em que escrevo, ainda que seja o início de um caminho, são ainda insuficientes: na forma, no conteúdo, na abrangência e na rapidez. Temos que fazer melhor.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

Recomendadas

Um Orçamento igual aos outros

O que é mau para Portugal é que este é um Orçamento igual aos outros, sobretudo a nível conceptual. Insiste-se no erro de que o país tem de orbitar à volta do Estado, em vez de este ser uma ferramenta para a sociedade.

A crise política e o fator de incerteza

A crise política só acontecerá se Costa concluir que tem mais a ganhar com eleições antecipadas. Mas a crise da energia levanta um fator de incerteza que pode baralhar estes cálculos.

Vem aí o MiCA, mas não chega

A solução não passa pela custódia de informação nenhuma, nem pela responsabilização à antiga por parte da regulação, mas sim na garantia de execução dos direitos, de acordo com as regras e a lei, pelos próprios reguladores.
Comentários