Museu Salazar, sim

A investigação histórica deve servir para gerar debate, em que cada um tem a oportunidade de ser crítico dos acontecimentos. Devemos ter sempre a oportunidade de questionar valores.

A criação do Museu Salazar tem gerado polémica e fraturas na sociedade portuguesa, havendo já um abaixo-assinado e uma petição para o impedir. Não está em causa a bondade destas ações, mas a validade das mesmas.

Ainda que muitos possam compreender os motivos de ordem emocional que levaram ex-presos políticos e intelectuais a fazê-lo, serão sempre inexplicáveis numa perspetiva democrática e plural.

A liberdade, quer seja individual ou coletiva, nunca pode ser posta em causa, ainda que o seja para obstar ao conhecimento de pessoas e de factos que, no entender e sentir de muitos, contribuíram para a condicionar, no passado.

A memória é sempre útil na identificação da identidade, na socialização dos valores fundamentais da sociedade, e na projeção do imaginário de um povo. É sinal de que se é grande enfrentar, sem peias, o nosso passado, e um erro evitar os lugares que acrescentam à memória coletiva.

A História é basicamente uma experiência humana, e nela cabe a dinâmica na interpretação do pretérito. A investigação histórica, seja ela mais ou menos isenta, deve servir para gerar debate, em que cada um tem a oportunidade de ser crítico dos acontecimentos.

Devem dar-nos sempre a oportunidade de questionar valores, e eventualmente pô-los em crise com as lentes dos nossos maiores. Mas sem que nos deem a conhecer as personalidades, sem que possamos aquilatar das suas qualidades e fraquezas, não é possível sermos corretivos e criar melhor.

Embora as experiências portuguesa e alemã sejam diversas e incomparáveis, Munique desde 2015 que passou a olhar de frente para o holocausto nazi, e abriu o seu museu, dando o melhor exemplo de catarse histórica.

Também em Portugal, foi criado nesse mesmo ano, o museu do Aljube dedicado à história e à memória do combate ao Estado Novo, sem que tivesse sido alvo de quaisquer resistências ou controvérsias.

Subestimar a inteligência de um povo, e negar-lhe a oportunidade de pensar, é um risco e não augura nada de bom. Dar espaço à liberdade, à memória e à História é um imperativo no tempo que corre.

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