Nações Unidas à beira do colapso

Tal como nas empresas, o “segredo” está em António Guterres apresentar uma reforma de base que o comprometa a “fazer mais com menos recursos”.

Desde o início da era Guterres nas Nações Unidas que se sabia que o que separava as necessidades financeiras colocadas pela gestão corrente da instituição e a realidade dos seus contribuintes líquidos, era uma linha muito ténue, que configurava o “equilíbrio no fio da navalha” – expressão celebrizada por Harrod e Domar, que apesar de remeter para um contexto macroeconómico, se pode aqui aplicar com toda a propriedade.

Para ilustrar a situação verdadeiramente caótica a que as Nações Unidas chegaram em termos de necessidades financeiras, veio na semana passada o seu Secretário-geral “decretar” a não utilização do ar condicionado em todos os edifícios bem como e também, a não utilização das escadas rolantes. O objectivo é claro: fazer poupança na energia consumida.

Estas medidas são obviamente simbólicas, porque a dimensão compaginada pela poupança não será suficiente para equilibrar o que desde há muito está em desequilíbrio.

Sabe-se que os Estados Unidos e o Brasil, além de outras nações doadoras, ainda não avançaram com o pagamento das suas quotas. Antes de promover o corte no ar condicionado e nas escadas rolantes, António Guterres terá que perceber primeiro por que razão doadores importantes não fazem os seus donativos. A mim parece-me claro.

Racionando a nível empresarial, é fácil concluir que quem avança com um financiamento ou uma doação quer ver os valores entregues aplicados da melhor forma. Recordo que no início da “legislatura Guterres”, este se comprometeu a fazer uma verdadeira reforma das Nações Unidas, abrangendo o capítulo dos gastos, privilégios, prebendas e acção da própria instituição. Passado todo este tempo, essas reformas encontram-se por fazer.

É pois natural que os principais financiadores das actividades e dos salários das Nações Unidas, não vendo de forma clara reformas tendentes a uma contenção de custos e à configuração das várias missões, continuem a “esquecer-se” de pagar as suas quotas.

As Nações Unidas não são um conglomerado de empresas e, como tal, não podem ser geridas à luz dos melhores e mais eficientes princípios de gestão empresarial. Acresce que o responsável máximo na instituição tem a obrigação, juntamente com o seu vasto staff de apoio e aconselhamento, de apresentar uma linha de acção em que todos os seus membros se revejam e que, por essa via, paguem as suas quotas.

Talvez as Nações Unidas devam fazer vários downgrades. Desde logo, no número de efectivos que vão pululando um pouco por todo o mundo nas suas várias Agências. Depois a nível dos salários auferidos pelos seus funcionários.

Tal como nas empresas, o “segredo” está em António Guterres apresentar uma reforma de base que o comprometa a “fazer mais com menos recursos”. Estou certo que no dia em que ele souber fazê-lo, não só terá a compreensão de todos os membros como todos irão pagar as respectivas quotas. Enquanto isso não for feito, a instituição continuará a navegar à vista e de mão estendida.

O autor escreve de acordo coma antiga ortografia.

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