Não, André, não volto às origens

Tenho evitado expressar a minha opinião sobre André Ventura, por várias razões. Primeiro porque, para quem lê esta coluna e tendo em conta o nome exótico do autor, não será difícil de adivinhar qual é essa opinião.

Tenho evitado expressar a minha opinião sobre André Ventura, por várias razões. Primeiro porque, para quem lê esta coluna e tendo em conta o nome exótico do autor, não será difícil de adivinhar qual é essa opinião.

Segundo, porque dar excessiva atenção ao fenómeno Chega pareceu-me contraproducente, pois seria dar um megafone a quem não o merece e apenas quer berrar.

Terceiro, porque sabia que haveria de chegar o momento a em que me sentiria moralmente impelido a fazê-lo.

Quando o então candidato à Câmara de Loures falou sobre a “excessiva tolerância” para com a comunidade cigana, decidi esperar para ver.

Quando Ventura reagiu a ataques terroristas para sugerir uma redução da presença islâmica na União Europeia, não fiz caso.

Quando o deputado do Chega decidiu “propôr” que a deputada Joacine Katar Moreira fosse “devolvida ao seu país de origem”, continuei a manter o silêncio.

Tudo isto me trouxe à memória um poema do padre alemão Martin Niemöller sobre a cobardia de muitos alemães perante o nazismo. Começa com “primeiro eles vieram apanhar os comunistas, e eu não disse nada, porque não era comunista”. Passa depois pelos ataques a socialistas, sindicalistas e judeus. E termina em “depois vieram à minha procura, e já não havia ninguém para falar por mim”.

Não estou a acusar o Chega de ser um partido nazi, nem de ter uma fila de inimigos na mira. No entanto, as palavras de Ventura em relação aos cânticos racistas que obrigaram o maliano Moussa Marega a pedir para ser substituído foi a gota de água. Uma reação imediata, a dizer que o problema é de hipocrisia e não de racismo, demonstra tudo sobre a natureza do pensamento político de Ventura.

Pior ainda, fez referência a uma alegada “síndrome Joacine” que “afeta as mentalidades”. Ler esse renovado ataque fez-me sentir, tal como Niemöller sentiu, que há limites e que eles já foram ultrapassados há algum tempo.

Marega conseguiu pôr o tema do racismo, e da posição absurda de Ventura, na agenda. A indignação generalizada com os cânticos racistas, e com os que os defenderam ou negaram, parece genuína e necessária.

Infelizmente, essa onda contrasta com uma certa complacência em relação à “proposta” de Ventura para Joacine voltar para a Guiné-Bissau. Vamos realmente tolerar que um deputado escreva isso sobre uma cidadã portuguesa, colega do hemiciclo, eleita democraticamente?

Também nasci numa ex-colónia. Tenho cidadania adquirida, cumpro os mesmos deveres e tenho os mesmos direitos.

E não, André, não vamos regressar às origens. Estamos aqui para ficar. Live with it.

Recomendadas

A banca é decisiva para salvar Portugal da crise, mas haverá coragem para isso?

A crise económica causada pela Covid-19 é a oportunidade de ouro para o setor financeiro se redimir dos escândalos da última década e para demonstrar por que razão deve ser resgatado pelos contribuintes, quando necessário. Uma forma de o fazer seria através de créditos a custo zero para empresas em dificuldades, com garantia estatal e a possibilidade de se transformarem em financiamentos a fundo perdido, como sugere Draghi.

As nossas vidas em modo Zoom

De repente, a vida ficou muito mais pequena.

A (geo)politização da Covid-19

Tanto regimes autoritários como democráticos falham ou têm sucesso. Não é empiricamente correto estabelecer uma relação de causa-efeito entre regime político e a eficácia da resposta.
Comentários