“Não há espaço para questões emocionais” na negociação dos direitos televisivos, avisa especialista em marketing desportivo

Daniel Sá defende que em Portugal deve existir um conjunto de critérios objetivos para uma distribuição justa dos valores envolvidos na negociação. “Podemos ir beber várias das experiências que já existem e encontrar o modelo certo para nós”, refere.

Depois de vários anos em debate, a centralização dos direitos televisivos dos jogos da I e II Ligas de futebol foi aprovada pelo Governo na quinta-feira, 25 de fevereiro e entrará em vigor a partir da temporada desportiva de 2028/2029.

Uma decisão considerada “revolucionária” pelo Executivo e como “um dia histórico” para a Liga de Clubes liderada por Pedro Proença. Contudo, é necessário definir o melhor modelo de partilha dos valores envolvidos no negócio em si, de forma a que nenhum dos clubes venha a ser prejudicado.

Em declarações ao Jornal Económico (JE), Daniel Sá, diretor-executivo do Instituto Português de Administração de Marketing (IPAM) de Lisboa, realça desde logo que este processo vai trazer mais dinheiro e equilíbrio desportivo ao futebol.

“Seguramente que estas duas coisas vão acontecer, ainda para mais num contexto em que estamos já com um ano de pandemia e onde as receitas da indústria do futebol caíram drasticamente. Se antes era importante ter mais dinheiro, agora é muito mais, inclusivamente porque temos visto já em vários países descidas significativas dos valores de transmissão televisiva, está tudo a ser renegociado em baixa”, refere.

O responsável salienta que esta negociação contratual dos direitos televisivos é fundamental para as equipas. “Os clubes portugueses já recebem muito pouco dinheiro da televisão, se desta fatia ainda se reduz então é uma desgraça”, frisa.

Questionado sobre quais as principais dificuldades que poderão surgir no processo de negociação entre os clubes envolvidos, Daniel Sá é pragmático. “Critérios objetivos, não há outra hipótese, ou seja não há forma de numa negociação destas dar espaço a questões emocionais”, dando como exemplo aquilo que já é feito nos campeonatos internacionais.

“A Liga inglesa resolveu isto há 20 anos distribuindo o dinheiro em 50% por igual por todos os clubes e os restantes 50% elegendo critérios muito objetivos para a respetiva distribuição, ou seja quantos títulos têm, a performance dos últimos anos, o número de adeptos ou o valor da marca. Tudo isto com uma medição objetiva e igual para todos através de um algoritmo matemático, portanto nem houve discussão”, explica.

Por isso, não resta aos clubes portugueses outro caminho que não seja encontrarem uma solução que seja igualmente benéfica para todos. “É inevitável arranjar um conjunto de critérios que resolva esta questão. O facto de termos sido dos últimos a aderir a isto, podemos ir beber várias das experiências que já existem e encontrar o modelo certo para nós”, sublinha.

Outra questão que se prende com esta centralização é naturalmente os valores contratuais já envolvidos com as operadoras televisivas e se poderão ou não ser superiores. “Em condições normais sem pandemia diria que era facilmente superável. Neste contexto será mais difícil, mas a expetativa está aí. Onde acho que pode haver mais dinheiro não é tanto das receitas do mercado português. Onde as receitas podem crescer bastante e ajudar todos os clubes são os direitos para o mercado internacional. As grandes ligas recebem muito mais dos direitos internacionais do que no próprio país”, salienta Daniel Sá.

Contudo, também aqui será necessária uma estratégia bem definida de promoção do futebol português. “Utilizando a analogia do supermercado, em vez de garrafas de vinho, temos ligas de futebol para comprar. Temos de trabalhar o pacote do nosso futebol para estar nas prateleiras e ser escolhido e atrativo”, afirma.

Se esta estratégia for executada com sucesso o futebol português pode aproximar-se das principais ligas europeias, sem nunca perder a noção de que é menos atrativa. “Na prateleira do futebol, o nosso pacote colocado ao lado da Premier League ou da Bundesliga é um pacote menos atrativo. Temos é que decidir em que países é que queremos estar e de que forma. Temos meia dúzia de jogos do nosso campeonato muito atrativos entre as primeiras quatro ou cinco equipas que podem ser vendidos de uma forma isolada e depois temos jogos menos interessantes. Aqui será muito um trabalho de marketing e afinação detalhada em escolher os mercados certos para isto”, conclui.

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