Não há regozijo em ter menos layoff

O Governo gastou menos do que o previsto a nível das medidas de combate ao impacto da pandemia, caso do layoff simplificado

O Governo gastou menos do que o previsto a nível das medidas de combate ao impacto da pandemia, caso do layoff simplificado. Esta notícia é do jornal “Público” e não pode ser motivo de regozijo. E isto porque das poucas medidas que beneficiaram as empresas, aquela foi a mais relevante e certamente aquela onde o Governo deveria ter feito mais. O défice público relativo ao primeiro semestre terá ficado nos 5,8% e que é um número melhor do que aquele antecipado pelo Governo. Mas não é para “deitar foguetes” porque muitos dos empresários que não recorreram ao instrumento vão agora iniciar processos de despedimento, e tudo pelo simples facto de não aguentarem a estrutura de pessoal e custos com uma economia pouco reativa. Muitos setores estão limitados a nível de exportações ou a nível de prestação de serviços, caso do turismo, hotelaria, aviação e conexos. Mas também a nível do consumo global há uma retração, nomeadamente no setor automóvel e de equipamentos. E mesmo com uma quebra que aos olhos do cidadão comum parece curta, por exemplo um crescimento negativo de 5%, é algo suficiente para colocar as empresas abaixo do nível de água. A generalidade das empresas perderam dinheiro nos dois primeiros trimestres e a tendência não irá melhorar até final do ano.
Pelo meio registámos o nascimento do plano Costa e Silva com ideias para revitalizar a economia, e parafraseando um senhor do antigo regime diríamos que não são ideias boas nem originais mas são o que são. A estratégia é abrangente, tem em conta os desígnios nacionais, os aspetos ambientais e visa reindustrializar. São ideias que um empresário medianamente envolvido na economia entende e aceita. Falta apenas perceber como tudo será financiado, sabendo nós que bancos com estrutura nacional só existe a Caixa e o Crédito Agrícola, já que o BCP e o NB têm acionistas externos. E nos tempos que correm com os cidadãos obcecados com as notícias do NB e com análises à gestão feitas a partir do “meio da rua”, aquilo que se percebe é a luta política entre uma esquerda radical que chantageia um Governo com a não inclusão de mais dinheiro na entidade que ainda terá de financiar o NB, e o outro lado que sabe que o Fundo de Resolução terá de pagar mas não quer perder votos num tema que não é do agrado do eleitor contribuinte. É possível que a próxima grande discussão seja perceber até que ponto a política foi responsável pela intervenção no antigo BES e o impacto negativo no tecido industrial nacional da medida.
No momento atual o mais relevante é perceber como se financiam planos de desenvolvimento. A questão está em perceber até onde iremos trabalhar com uma banca subordinada a países estrangeiros ou assumimos uma banca privada. O Estado pode, ou não, usar esta estratégia para continuar a estatizar a economia. O papel do banco de fomento será relevante, assim como o futuro da Caixa que não pode ser só um banco comercial, mas terá de apoiar a economia. O NB, herdeiro do BES, tem o know-how para esse papel. É também sabido que os projetos não podem apenas funcionar com dívida e não basta fazer pequenos aumentos do SMN, é preciso criar empregos e consolidá-los.

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