Não nos podemos render ao medo de voltar a trabalhar

Com a globalização desativada, os ecossistemas de consumo privado local poderão ser o ponto de partida essencial para a curva de severidade económica ser menos acentuada.

Na frente do combate pelo controlo do surto epidémico, e após as primeiras semanas em condição de emergência, as estatísticas mostram que Portugal pode ter evitado um desastre de grandes proporções no que diz respeito a danos humanos e ao colapso imediato da infraestrutura médica nacional, semelhante ao que observamos em Espanha, ou sobretudo em Itália.

Importa salientar que não estamos fora de perigo, que a partir de agora será um passeio. Até porque a maldição viral já custou algumas centenas de vidas, e poderá custar outras tantas, ou ainda mais até vermos o seu fim. Mas não estamos ainda a decidir nos hospitais quem tem lugar a ser encaminhado para uma cama de cuidados intensivos, e quem é deixado à sua sorte. E isso é já um sinal de esperança e de confiança de que o país será capaz de percorrer este período com a maior dignidade sanitária possível.

Contudo, não nos devemos deixar perder na frente sanitária da tragédia, uma vez que traz com ela outra emergência que não podemos ignorar, e devemos preparar o quanto antes, que é a de uma severa recessão da economia e acentuada subida desemprego. Não se enganem, estamos perante um potencial desastre, e não chegará ficar em casa para ultrapassarmos este novo desafio.

O controlo do surto exige mais tempo do que aquele que percecionamos. Alisar a curva custa tempo, mas salva vidas.

Todos conhecemos a razão pela qual estamos confinados em casa, e que tem sido evidenciada pela máxima “uma imagem que vale mais de mil palavras” – e pela frase que que sintetiza facilmente a estratégia de isolamento do país: é preciso alisar a curva para que o Sistema Nacional de Saúde não entre em colapso.

O racional é simples, existe apenas um número limitado de recursos e equipamentos médicos para tratar os casos mais graves que requerem internamento, e ainda mais limitado para situações de extrema gravidade (que exigem equipamentos como os ventiladores para UCI, que são negociados a peso de ouro nos mercados internacionais). Portanto, quanto menor o número de casos ao longo do tempo, menor a pressão sobre os nossos profissionais de saúde, e menores probabilidade teremos de rotura na rede hospitalar, que assim terá tempo para gerir as situações mais graves sem ter que optar por quem se salva e quem fica por sua conta e risco.

Este é, no fundo, um processo para comprar tempo. Quanto maior for a fragilidade da infraestrutura de saúde de um país, mais tempo será preciso comprar e, consequentemente, maior terá que ser o alisamento da famosa curva de severidade sanitária. Por último, significa também que a restrição à mobilidade das pessoas terá de ser maior, seja em medidas, seja sobretudo em tempo de duração do estado de emergência.

As expetativas indicam que vai levar tempo até podermos dizer que a pandemia ficou para trás, e que a mobilidade é segura para todos. Ansiamos pelo regresso à normalidade mas, infelizmente, existem cada vez mais sinais evidentes de que tal só será possível muito para além da Páscoa. De acordo com algumas estimativas produzidas por analistas do Deutsche Bank, assentes na experiência de Hubei (China), as datas estimadas para o potencial início do levantamento das restrições à mobilidade apontam para a última quinzena de maio, ou princípios de junho.

A economia não pode ser negligenciável. Existe outra “curva” que importa alisar.

A curva da severidade sanitária é a que já todos conhecemos, mas existe outra menos falada e que é fundamental dar a conhecer, porque alisar esta curva representa uma tarefa tão hercúlea e importante como proteger as populações do vírus. Refiro-me à curva da severidade da recessão, que encerra também um exercício simples. Quanto maiores forem os incentivos para mitigar os impactes da pandemia na economia, menor será a severidade na perca de empregos e de poder de compra.

E quanto mais rápido se conseguir atuar para repor condições que permitam repor a normalidade, menos pressão será exercida sobre a capacidade do Estado de alimentar subsídios como resposta, diminuindo a pressão sobre as contas públicas, e, desta forma, evitando a rutura financeira, que aumentaria a severidade da recessão que está à porta.

Quando as “curvas” colidem. O risco de desastre social deve ser levado a sério.

A gestão da curva da crise sanitária colide com a necessidade de resposta à curva da dimensão da recessão económica, que poderá ser de enorme profundidade no que diz respeito a Portugal. A meio caminho, algo vai ficar na zona de risco. Dificilmente poderemos ter a população ativa mais de dois ou três meses totalmente fechada em casa sem consequências elevadas em termos económicos, mas também sociais.

E mesmo com programas de apoios europeus, será muito complexo gerir o ciclo de meio ano necessário até surgir um tratamento credível ou vacina. Nos Estados Unidos, em poucas semanas atingiu-se o valor de dez milhões de desempregados.

Portugal não ficará imune, devido à elevada dependência de sectores exportadores e do turismo. E quanto mais tempo durarem as restrições, maior o risco de desagregação social, sobretudo se do lado da União Europeia não existir um compromisso para um programa de apoio económico reformador e abrangente. As tradicionais respostas monetárias do Banco Central Europeu serão insuficientes.

O necessário equilíbrio justifica um regresso antecipado ao trabalho, em risco controlado.

Hoje, a consciencialização das populações para os riscos da pandemia é significativa. Tanto que tem representado um fator positivo na estratégia de contenção da propagação da pandemia em Portugal. Ao mesmo tempo, assegura-se um equilíbrio com as preocupações sanitárias, conferindo equilíbrio à dupla necessidade de alisar as curvas, em que por um lado precisamos de dar mais tempo de restrições de mobilidade em nome das limitações do nosso sistema de saúde, e por outro precisamos de dar menos tempo para prestar apoio às limitações da capacidade de resposta da nossa economia, para proteger os empregos e as famílias.

Por essa razão, não se pode, nem se deve, alimentar o medo de voltar ao trabalho. É preciso começar a trabalhar num plano que permita devolver confiança na rua, e que os pequenos negócios funcionem. E isto passa por criar o quanto antes um ambiente controlado, onde é fundamental proceder a testes de imunidade em massa, e de forma recorrente envolvendo empresas, trabalhadores e entidades publicas num processo que permita, de forma faseada e dirigida, voltar a produzir – pelo menos, inicialmente, nos sectores que o possam fazer. E, neste âmbito, pode ser importante começar pelas economias locais, pelas autarquias.

Com a globalização desativada, poderão ser os ecossistemas de consumo privado local que poderão ser o ponto de partida essencial para que a curva de severidade económica seja menos acentuada, e que desta forma a capacidade de resposta estatal não entre em colapso. É importante começar já. Alisar esta curva será, muito em breve, tão importante como alisar a curva da pandemia.

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