[weglot_switcher]

“Não tinha plano”: Trump e assessores não esperavam resposta agressiva do Irão à guerra

Mesmo durante os ataques israelitas e americanos contra o Irão em junho passado, disse Wright, houve pouca perturbação nos mercados. “Os preços do petróleo subiram brevemente e depois voltaram a cair”, afirmou.
12 Março 2026, 10h48

No dia 18 de fevereiro, enquanto o presidente Donald Trump avaliava se deveria lançar ataques militares contra o Irão, Chris Wright, secretário de Energia, disse a um entrevistador que não estava preocupado com a possibilidade de a guerra iminente interromper o fornecimento de petróleo no Médio Oriente e causar estragos nos mercados.

Mesmo durante os ataques israelitas e americanos contra o Irão em junho passado, disse Wright, houve pouca perturbação nos mercados. “Os preços do petróleo subiram brevemente e depois voltaram a cair”, afirmou.

Alguns dos outros assessores de Trump compartilhavam opiniões semelhantes em particular, descartando alertas de que o Irão poderia travar uma guerra económica fechando rotas marítimas que transportam cerca de 20% do fornecimento mundial de petróleo.

A extensão desse erro de cálculo ficou evidente nos últimos dias, quando o Irão ameaçou disparar contra navios petroleiros comerciais que transitam pelo estreito de Ormuz, o ponto de estrangulamento estratégico pelo qual todos os navios devem passar ao sair do golfo Pérsico.

O episódio é emblemático de quanto Trump e os seus assessores avaliaram mal como o Irão responderia a um conflito que o regime em Teerão vê como uma ameaça existencial. O Irão respondeu de forma muito mais agressiva do que durante a guerra de 12 dias em junho passado, disparando rajadas de mísseis e drones contra bases militares americanas, cidades em nações árabes por todo o Médio Oriente e centros populacionais israelitas.

Autoridades americanas tiveram que ajustar planos às pressas, desde ordenar a evacuação de embaixadas até desenvolver propostas de políticas para reduzir os preços da gasolina.

Depois de as autoridades do governo Trump terem feito uma reunião a portas fechadas com parlamentares na terça-feira (10), o senador democrata Christopher Murphy disse nas redes sociais que o governo “NÃO TINHA PLANO” para o estreito de Ormuz e “não sabia como reabri-lo com segurança”.

Dentro do governo, algumas autoridades estão a ficar pessimistas com a falta de uma estratégia clara para encerrar a guerra. Mas têm sido cuidadosas em não expressar isso diretamente ao presidente, que tem declarado repetidamente que a operação militar é um sucesso completo.

Trump estabeleceu metas maximalistas, como insistir que o Irão nomeie um líder que se submeta a ele, enquanto o secretário de Estado, Marco Rubio, e o secretário de Defesa, Pete Hegseth, descreveram objetivos mais restritos e táticos que poderiam fornecer uma saída no curto prazo.

Karoline Leavitt, secretária de imprensa da Casa Branca, disse que o governo “tinha um plano de ação sólido” antes de a guerra começar, e prometeu que os preços do petróleo cairiam após o seu término.

“A interrupção proposital no mercado de petróleo pelo regime iraniano é de curto prazo e necessária para o ganho de longo prazo de eliminar esses terroristas e a ameaça que representam para a América e o mundo”, disse em comunicado.

Esta reportagem é baseada em entrevistas com uma dúzia de autoridades americanas, que pediram anonimato para discutir conversas privadas.

“Mostrem coragem”

Hegseth reconheceu na terça-feira que a resposta feroz do Irão contra os seus vizinhos pegou o Pentágono um pouco desprevenido. Mas insistiu que as ações do Irão estavam a ser contraproducentes.

“Não posso dizer que necessariamente antecipámos que seria exatamente assim que eles reagiriam, mas sabíamos que era uma possibilidade”, disse Hegseth numa entrevista coletiva no Pentágono. “Acho que foi uma demonstração do desespero do regime.”

Trump demonstrou crescente frustração com a forma como a guerra está a interromper o fornecimento de petróleo, dizendo à Fox News que as tripulações dos petroleiros deveriam “mostrar coragem” e navegar pelo estreito de Ormuz.

Alguns assessores militares alertaram antes da guerra que o Irão poderia lançar uma campanha agressiva em resposta e veria o ataque americano-israelita como uma ameaça à sua existência. Mas outros assessores permaneceram confiantes de que matar a liderança sénior do Irão levaria líderes mais pragmáticos a assumir o poder e possivelmente encerrar a guerra.

Quando Trump foi informado sobre os riscos de que os preços do petróleo poderiam subir em caso de guerra, ele reconheceu a possibilidade, mas minimizou como uma preocupação de curto prazo que não deveria ofuscar a missão de decapitar o regime iraniano. Ele orientou Wright e o secretário do Tesouro Scott Bessent a trabalharem no desenvolvimento de opções para um possível pico nos preços.

Mas o presidente não falou publicamente sobre essas opções —incluindo seguro de risco político apoiado pelo governo americano e a possibilidade de escoltas da Marinha dos EUA— até mais de 48 horas após o início do conflito. As escoltas ainda não aconteceram.

À medida que o conflito abalou os mercados globais, republicanos em Washington ficaram preocupados com o aumento dos preços do petróleo prejudicando seus esforços para vender uma agenda económica aos eleitores antes das eleições de meio de mandato.

Trump, tanto publicamente quanto em particular, tem argumentado que o petróleo venezuelano poderia ajudar a resolver quaisquer choques vindos da guerra com o Irão. O governo anunciou na terça-feira uma nova refinaria no Texas que, segundo autoridades, poderia ajudar a aumentar o fornecimento de petróleo, garantindo que o Irão não cause nenhum dano de longo prazo aos mercados de petróleo.

Uma possível saída

Trump disse tanto que a guerra poderia durar mais de um mês quanto que estava “muito completa, praticamente”. Também disse que os EUA “seguiriam em frente mais determinados do que nunca”.

Rubio e Hegseth, no entanto, parecem ter coordenado suas mensagens por enquanto em torno de três objetivos específicos que começaram a apresentar em declarações públicas na segunda (9) e terça-feira.

“Os objetivos desta missão são claros”, disse Rubio num evento no Departamento de Estado na segunda-feira, antes de Trump realizar a sua própria entrevista coletiva. “É destruir a capacidade deste regime de lançar mísseis, tanto destruindo os seus mísseis quanto seus lançadores; destruir as fábricas que fabricam esses mísseis; e destruir a sua Marinha.”

O Departamento de Estado até apresentou os três objetivos em formato de tópicos e destacou um videoclipe de Rubio declarando-os numa conta oficial de mídia social.

A apresentação de Rubio, que também é conselheiro de segurança nacional da Casa Branca, parecia estar preparando o terreno para o presidente encerrar a guerra mais cedo do que tarde. Na sua conferência de imprensa, Trump se gabou de como os militares americanos já haviam destruído a capacidade de mísseis balísticos do Irão e sua marinha. Mas também alertou para ações ainda mais agressivas se os líderes iranianos tentassem cortar o fornecimento de energia mundial.

Matthew Pottinger, que foi vice-conselheiro de segurança nacional no primeiro governo Trump, disse em entrevista que o presidente americano havia indicado que poderia decidir perseguir objetivos de guerra ambiciosos que levariam pelo menos algumas semanas.

“Na sua entrevista coletiva, pude ouvi-lo voltando a uma justificativa para lutar um pouco mais, dado que o regime ainda está sinalizando que não será dissuadido e ainda está a tentar controlar o estreito de Ormuz”, disse Pottinger, agora presidente do programa sobre China na Fundação para Defesa das Democracias, um grupo que defende uma parceria próxima dos EUA com Israel e confronto com o Irão.

RELACIONADO

Copyright © Jornal Económico. Todos os direitos reservados.