Num tempo em que a economia mundial se alimenta de dados e processadores, os semicondutores são mais do que componentes eletrónicos — são o sistema nervoso da soberania contemporânea. Por isso, a decisão do governo holandês de intervir na Nexperia não é apenas um episódio industrial; é um aviso, um ponto de rutura entre idealismo económico e sobrevivência estratégica. Quando uma empresa europeia que fornece chips para a indústria automóvel, maquinaria de precisão e defesa está sob controlo de capitais chineses, a ingenuidade deixa de ser uma opção — e a neutralidade tecnológica, um mito.

Os Países Baixos compreenderam-no tarde, mas a tempo. Perante sinais de deficiências de governação e suspeitas de transferência de tecnologia sensível para Pequim, o governo invocou uma velha lei de emergência herdada da Guerra Fria e tomou o controlo da Nexperia. Foi uma medida drástica? Sim. Mas também uma afirmação clara de que o mercado não pode ditar todos os parâmetros da segurança nacional.

A Wingtech, empresa-mãe chinesa, reagiu com hostilidade. Pequim gritou “discriminação”, bloqueou exportações e orientou a sua filial para o confronto jurídico e político. A retaliação foi imediata — mas previsível. O que está em jogo é mais do que um conflito comercial: é a redefinição das fronteiras tecnológicas da Europa numa era em que quem controla os chips controla em parte o ritmo da história.

A reação europeia foi célere. Associações industriais alertaram para o risco de nova paragem na produção automóvel. Montadoras como Volkswagen, BMW e Stellantis estimaram perdas de milhares de milhões, lembrando o pesadelo de 2021, quando a escassez de semicondutores travou a produção global em 10 milhões de veículos. E Portugal, inevitavelmente, encontra-se neste epicentro.

A Autoeuropa, em Palmela, já admitiu preocupações com o fornecimento, ainda que a produção decorra sem restrições. Mas ninguém ignora que uma interrupção prolongada pode afetar turnos, exportações e estabilidade laboral num dos maiores polos industriais do país. Bosch, Continental e outros produtores de componentes eletrónicos vivem sob a mesma sombra. A crise da Nexperia é um lembrete cruel da condição periférica de Portugal nas cadeias de valor tecnológicas — dependente de decisões tomadas a milhares de quilómetros, mas com consequências locais imediatas.

A decisão holandesa, embora criticada por protecionismo, é também um espelho para a União Europeia. Bruxelas fala há anos em autonomia estratégica sem a praticar. Agora, pela via de Haia, começou a fazê-lo. O dilema é conhecido: quanto mais a Europa protege os seus ativos críticos, mais se expõe à acusação de fechar mercados e afastar investimento estrangeiro. Mas como ensina a história, há momentos em que os riscos de não agir superam os custos de agir. Preferir a pureza dos princípios de concorrência ao preço da vulnerabilidade é um erro que nenhum país pode repetir depois da pandemia, da guerra na Ucrânia ou das tensões sino-americanas.

Portugal deve ler este episódio com pragmatismo e urgência. Não tem uma indústria de semicondutores robusta, mas integra cadeias europeias de alta exigência tecnológica. O país não pode continuar a ser apenas um destino de montagem — precisa de se posicionar como elo inteligente no novo eixo da soberania digital europeia. Isso implica investimento nacional em microeletrónica, com apoio do PRR e do Portugal 2030, parcerias com o INL de Braga e centros de investigação como o CEiiA, e um aproveitamento estratégico do European Chips Act, que prevê 43 mil milhões de euros até 2030 para reforçar a produção europeia. Mais do que discursos sobre resiliência, o que se impõe é capacidade de antecipação e de política industrial. O futuro da Autoeuropa, e de muito do tecido exportador português, depende dessa visão.

A Holanda, ao proteger os seus interesses estratégicos com a intervenção na Nexperia, fez o que outros hesitam em fazer: equilibrou segurança com economia, poder com prudência. Num mundo em que o controlo dos semicondutores é o novo petróleo, proteger uma fábrica é proteger o Estado. Portugal devia tomar nota — o tempo da dependência ingénua acabou. A política industrial, quando bem conduzida, é também uma política de inteligência. E ignorar essa verdade custa mais caro do que qualquer nacionalização preventiva.