No país das exceções

A idade como principal fator de risco na pandemia da Covid-19 parece que em Portugal não existe. Mas daqui a uns meses, haverá quem celebre o ‘êxito’ da vacinação com as habituais referências ao bom Povo lusitano.

1. Para fornecer respaldo à decisão política de dar prioridade à vacinação dos professores, na sequência da reabertura das escolas, o vice-almirante Henrique Gouveia, responsável pela task force anti-Covid, explicou que a estratégia nacional contempla uma percentagem de 90% de vacinas destinadas a “salvar vidas” e os restantes 10% alocados a uma rubrica chamada “resiliência”.

É neste âmbito que se reservaram já 200 mil doses para vacinar os professores na “transição da primeira fase para a segunda fase”, ignorando olimpicamente a realidade: a Covid-19 mata sobretudo pessoas idosas, acima dos 70 anos, quase 80% das mortes. Os números são ainda mais cruéis a partir dos 80 de idade. Abaixo da fasquia dos 50 anos as mortes são residuais (3%).

2. Perante esta realidade, compreende-se a opção de países como o Reino Unido, a Alemanha e a Itália: vacinaram as pessoas com mais de 80 anos logo na primeira fase.

Em Portugal, esta primeira fase está quase a chegar ao fim e das 950 mil pessoas incluídas, com exceção dos residentes em lares e instituições similares, a esmagadora maioria dos vacinados não tem nenhuma relação com a idade. São profissionais de saúde (a única exceção que a meu ver faz sentido), das forças armadas, das forças de segurança e “serviços críticos”. Acima de 50 anos apenas se vacinaram pessoas com patologias graves.

3. É típico. Em Portugal, cada vez que há um processo sucedem-se as exceções à regra geral, transformada em pró-forma.

É assim nos sistemas remuneratórios, nos subsistemas de saúde, nos privilégios que cada casta consegue ‘conquistar’, fruto da luta corporativista que captura o Estado e vai moldando a sociedade na crença de que aquilo que fazemos é muito mais importante do que aquilo que os outros fazem, daí o ‘reconhecimento’ (leia-se: as regalias devidas).

É desta forma que se tem desenvolvido este Portugal pequeno de exceções sobre exceções que nunca permitem assumir lógicas políticas saudáveis, inquestionáveis, aceites como justas.

Ainda no caso das vacinas, os atropelos nas filas são como os bilhetes de avião comprados para viagens aos Açores que não se fazem: o objetivo é apenas beneficiar do teste à borla oferecido pelo governo regional. Estes mecanismos mentais, desenvolvidos durante anos, são um cancro da vida pública nacional.

4. Um português-tipo, moldado por esta notável idiossincrasia, nunca conseguirá perceber a razão pela qual Kusturica passou a filme, em documentário, a vida do ex-presidente uruguaio José “Pepe” Mujica.

A ideia de que o Estado terá regras que devem ‘obrigar’ quem o pretende servir a fazer um upgrade nas suas opções de consumo diário é, apenas, uma desculpa tão legítima quanto outras para subir rendimentos e sinecuras. A vacinação anti-Covid tem a ver com esta forma de ver o mundo: há responsabilidades e elas significam direitos.

Curiosamente, raramente implicam deveres. É por isso que os políticos são vacinados antes dos caixas de supermercados e postos de gasolina – porque, supostamente, terão mais valor ou correm mais riscos. Ao abrigo da vacinação dos professores não me admiraria vir a saber da vacinação de Mário Nogueira, um professor que já não se lembrará da última aula que deu.

5. A idade como principal fator de risco na pandemia parece que em Portugal não existe. E, no entanto, daqui a uns meses haverá quem esteja para aí a celebrar o fim do processo e o ‘êxito’ da vacinação com as habituais referências ao bom Povo lusitano. Nessa altura já estaremos a começar outro processo, sempre excecional, que acabará em défice. O moral está sempre garantido.

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