Nos 40 anos de Camarate

Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa prestaram um relevante serviço na defesa da democracia pluralista, quer em 75, quer nos primeiros anos do novo regime.

No dia 4 de Dezembro de 1980 Portugal recebia, ao início da noite, a notícia da queda de uma aeronave, em Camarate, que resultara na morte de todos os tripulantes. O lamento, que sempre se sente em semelhantes circunstâncias, foi ampliado porque este despenhamento furtava brutalmente ao país o seu primeiro-ministro e o seu ministro da Defesa.

Mas o choque e consternação que estas mortes, inesperadas e prematuras, geraram, não se devia apenas ao desaparecimento de dois governantes: devia-se, sobretudo, à perda de duas das personalidades mais relevantes da vida política portuguesa do pós-25 de Abril.

Francisco Sá Carneiro iniciara o seu percurso político na Ala Liberal da Assembleia Nacional onde, com coragem, expôs os abusos e arbitrariedades de um regime autoritário, assente nas suas “verdades” de 1933, que a evolução dos tempos haviam tornado obsoletas e, mais do que isso, inaceitáveis.

Consumada a queda do Estado Novo, fundou o PPD/PSD com base num projecto político de democratização da política e da sociedade, tendo como inspiração os regimes de liberdade da Europa Ocidental de que geográfica, civilizacional e historicamente fazemos parte.

Com uma personalidade complexa, o seu percurso  foi marcado por saídas episódicas da vida política e, uma vez mais, se preparava para o fazer, caso  vencesse as eleições presidenciais. Mas, porque em política se regressa quase sempre, restou a dúvida do que faria após o período de nojo decorrente da derrota nas presidenciais em que decidira apostar tudo, como era seu timbre.

Adelino Amaro da Costa era um democrata-cristão convicto. Tal como Sá Carneiro, estava associado por “herança familiar” ao Estado Novo e desempenhou funções junto de um dos ministros reformadores do governo de Marcello Caetano, Veiga Simão. Descrente também ele no regime, viu no 25 de Abril a oportunidade de concretização de um Portugal democrático e europeu, empenhando-se com voluntarismo na criação de um partido político que encarnasse os valores doutrinários em que acreditava.

Apesar das suas qualidades políticas, que todos – da esquerda à direita –, lhe reconheciam, não era também certo o seu futuro. Número dois de Freitas do Amaral, ao qual estava ligado por vínculos de amizade e de identidade política, não é certo que ascendesse à liderança, uma vez terminado o exercício do seu primeiro presidente.

Internamente contestado, o mais provável é que acabasse por abandonar o CDS, como fizeram tantos dos seus dirigentes históricos, sobretudo a partir do momento em que o partido assumiu matizes nacionalistas e reservas quanto ao projecto comunitário. O capítulo seguinte da sua biografia política, ficou, porém, tal como o de Sá Carneiro, por escrever.

Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa prestaram um relevante serviço na defesa da democracia pluralista, quer em 75, quando esta se viu ameaçada por projectos políticos concorrentes, quer nos primeiros anos do novo regime, em que se dedicaram a desmontar a “muralha de aço” constitucional que separava Portugal do destino nacional que ambos ambicionavam.

Quarenta anos passados, é devida uma homenagem a dois dos combatentes que lutaram na linha da frente pela liberdade de que hoje beneficiamos.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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