A reação dos mercados às iniciativas de Donald Trump tem sido contida, o que sugere mais uma mudança na forma de interpretar os seus efeitos na economia do que simples desatenção dos investidores. Em contraste, os metais preciosos continuam a fazer novos máximos, como se o “seguro” estivesse a ser comprado fora do sistema financeiro tradicional.

Nas últimas semanas, acumularam‑se eventos que, noutros tempos, teriam desencadeado quedas fortes e muita emoção nos mercados: a intervenção direta dos EUA na Venezuela, o risco de um ataque ao Irão, ameaças de alteração de fronteiras formais – como no caso da Gronelândia – e a pressão da Casa Branca sobre o sistema financeiro, com a proposta de teto de 10% nas taxas dos cartões de crédito e o conflito aberto com Jerome Powell, para influenciar a política monetária. Mesmo assim, os principais índices acionistas oscilam, corrigem pontualmente, mas regressam depressa a novos máximos.

Há várias explicações possíveis para esta aparente apatia. Por um lado, as economias desenvolvidas entram em 2026 com a inflação controlada, taxas de juro em patamares pouco restritivos, possibilidade de mais estímulos fiscais e indicadores de atividade que, não sendo exuberantes, estão longe de antecipar um cenário recessivo. Por outro lado, a liquidez global permanece abundante e a procura por retorno empurra os investidores para ativos de risco.

Também ajuda o facto de muitos destes choques serem percecionados como relevantes para a geopolítica, mas menos impactantes no estado da economia. A sucessão de crises nos últimos anos – pandemias, guerras, choques energéticos, episódios de stress bancário – treinou os mercados para não reagir a todas as manchetes.

É no ouro e outros metais preciosos que se tem encontrado uma válvula de escape: 2025 foi um ano histórico para o ouro e prata, com novos máximos alimentados pela combinação de incerteza política, dúvidas sobre a Fed e compras persistentes de bancos centrais. Portanto, mesmo que estejamos perante uma mudança de paradigma, em que a antiga ordem mundial é abandonada, as instituições são colocadas em causa e com alterações a todos os níveis, os investidores parecem dispostos a tolerarem mais ruído institucional e geopolítico, desde que a macroeconomia não descarrile. Porém, vão utilizando os metais preciosos como uma apólice de seguro.