O advento dos Otimistas

Sabemos que as empresas e as suas marcas têm um papel absolutamente fundamental no desenvolvimento das sociedades, pois são parte integrante das mesmas. Nem sempre o fazem, mas quando o fazem, merecem esse reconhecimento.

Habitualmente, tendo a ser bastante calculista naquilo que faço o que, para muitos, pode ser visto como uma espécie de pessimismo. De tal forma que um certo dia um amigo me explicou que não é necessariamente mau ser-se pessimista, desde que haja um equilíbrio. E para melhor ilustrar, explicou-me que os otimistas inventaram o avião, mostrando que somos capazes das maiores proezas. Aos pessimistas coube a missão de inventar o para-quedas, pois perceberam que os aviões podiam e caíam mesmo. Ambas as soluções são muito válidas. O segredo, como me dizia esse amigo, está no equilíbrio.

Escrevo estas linhas ainda de férias – as primeiras em 2020 – e quando temos tempo para descansar e pensar, junto da família, tornamo-nos – pelo menos no meu caso – mais otimistas e vemos as muitas coisas boas que acontecem à nossa volta, mesmo com os altos e baixos provocados pela COVID-19.

Sabemos que as empresas e as suas marcas têm um papel absolutamente fundamental no desenvolvimento das sociedades, pois são parte integrante das mesmas. Nem sempre o fazem, mas quando o fazem, merecem esse reconhecimento. A alemã Volkswagen, por exemplo, aliou-se a um arquiteto holandês para desenvolver um trator agrícola movido a energia solar. O primeiro protótipo já está a ser testado e esta invenção pode revolucionar e desenvolver completamente os países mais pobres do globo, como acontece, por exemplo, em África, onde o combustível é limitado, mas o sol abunda.

Em Itália, o Governo anunciou o investimento de 137 milhões de euros na construção de novas ciclovias em cidades com pelo menos 50 mil habitantes. O mais interessante é que estas ciclovias não serão apenas urbanas ou rurais: farão, antes, a ligação entre ambas. O primeiro projeto, a Valdarno Bike Road, terá 250 km de pistas e ligará várias regiões, desde Florença à zona vinícola de Chianti. No percurso, os ciclistas encontrarão placas com indicação para monumentos, museus, hotéis e restaurantes, entre outros espaços com interesse.

Jozsef Varadi, CEO e cofundador da companhia aérea húngara Wizz Air, dá uma entrevista muito interessante à Monocle deste mês, onde explica a resiliência e estratégia da empresa que lhe permitem, perante uma pandemia mundial, encomendar novos aviões e abrir novas rotas. A explicação parece simples: “não gerimos o negócio apenas para dar lucro, mas também para sermos resilientes a longo-prazo”. As reservas de liquidez que foram feitas ao longo do tempo – 1,5 mil milhões de euros aquando do início da crise – permitem a esta companhia aérea operar em pleno nesta fase, quando muitas outras lutam pela sobrevivência.

Por último, e não despiciendo, o anúncio (escrevo este artigo antes da apresentação oficial) de José Neves, fundador e CEO da Farfetch, da criação de uma fundação para a educação em Portugal. Apostar em Portugal e na Educação, doando dois terços de tudo o que tem, merece ser destacado. Não conheço pessoalmente José Neves, mas só pode ser um otimista. O seu “avião”, a Farfetch, foi a primeira start-up portuguesa a valer mais de mil milhões de dólares, tornando-se um unicórnio; neste período de confinamento, as receitas dispararam 74%, mas os prejuízos quadruplicaram; as ações dispararam 300% nos primeiros quatro meses do ano, o que mostra que os investidores estão satisfeitos e confiantes na estratégia da empresa.

Estes quatro exemplos positivos são a confirmação de que as empresas e as suas marcas podem fazer muito pela sociedade. Correndo o risco de ser demasiado romântico, arrisco-me a citar Shakespeare para dizer que “a paixão aumenta em função dos obstáculos que se lhe opõem”.

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