Considera aceitável que a resolução de um problema que custa milhares de dias de trabalho perdidos e milhares de vidas continue a não ser considerado em orçamentos?
É o que acontece com a literacia em saúde.
Numa altura em que a desinformação e as fake news em saúde assumem proporções cada vez maiores, os custos para a saúde são cada vez mais reais: sobrecarga dos serviços de saúde e perda de confiança nas instituições, faltas a consultas e consequente desperdício de recursos públicos.
Investir em literacia em saúde, seja para a população, seja para os próprios profissionais de saúde, deixa de ser apenas uma necessidade social ou ética e torna-se numa decisão económica para governos e empresas.
Vamos aos dados: em Portugal, segundo a OCDE, cerca de um terço de todas as mortes registadas podem ser atribuídas a fatores de risco comportamentais como o tabaco, os riscos alimentares, o álcool ou a falta de exercício físico. Segundo os dados mais recentes, apenas 2% da despesa do SNS é dedicada à prevenção e, nos últimos anos, mais de 900 mil consultas foram desperdiçadas por não comparecimento dos doentes.
A boa notícia? A literacia em saúde tem um retorno elevado por cada euro investido.
Um cidadão que compreende a importância da vacinação protege-se a si e aos outros; uma pessoa informada sobre os rastreios oncológicos recorre aos cuidados no momento certo, evitando tratamentos mais caros e invasivos; um trabalhador que sabe como gerir uma doença crónica falta menos ao trabalho e mantém-se produtivo durante mais tempo.
Investir em literacia em saúde não significa apenas distribuir folhetos com recomendações. É necessário um esforço coordenado entre escolas, empresas, serviços de saúde e comunicação social para capacitar as pessoas a tomar decisões informadas. E isto não é apenas uma utopia, temos organizações como a Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde totalmente capacitadas para implementar estas soluções.
Está na hora de deixar de ver a literacia em saúde como um “custo” e começar a tratá-la como um ativo estratégico: um investimento que gera retorno económico, social e humano.
O analfabetismo em saúde está a custar-nos caro. As contas ainda não aparecem no Excel, mas a fatura chega-nos todos os dias, nos hospitais, nas empresas, nas famílias. A questão é: quando decidiremos pagar por soluções em vez de consequências?


