O BCE e a inflação no pós-pandemia

Christine Lagarde lançou um alerta aos governos e aos “falcões” no seio do BCE: a eventual subida da inflação, após o fim do confinamento, não pode servir para justificar uma antecipação da retirada dos estímulos monetários. Se este cenário ocorrer, o BCE deverá deixar claro que está disposto a tolerar um pouco de inflação, durante algum tempo, sem mexer nos estímulos monetários. Para Portugal e outros países mais frágeis, esta clarificação será fundamental.

O Banco Central Europeu (BCE) está a realizar uma revisão da sua estratégia, pela primeira vez em 18 anos. Desde então, muito mudou na Europa e no mundo, devido a fenómenos como a globalização, a ascensão da China no comércio mundial, as alterações demográficas, a digitalização e as várias crises financeiras que obrigaram os bancos centrais a recorrer a medidas não-convencionais, levando a economia para mares nunca antes navegados, com taxas de juro negativas e países como Portugal a financiarem-se nos mercados a taxas historicamente baixas.

Um dos temas abordados nesta revisão de estratégia é o das prioridades do BCE. Os tratados europeus atribuem ao banco central, como “objetivo primordial”, a manutenção da estabilidade de preços, com uma taxa de inflação positiva, baixa e estável. Atualmente, o BCE tem como objetivo manter a inflação num valor abaixo – mas perto – de 2%. Só depois vêm outros objetivos, como contribuir para o crescimento económico e para a sustentabilidade.

Deve o BCE dar mais atenção a algumas destas preocupações, para além da estabilidade dos preços? E deve rever a referida meta da inflação?

Nos últimos anos, habituámo-nos a uma inflação praticamente inexistente. Se antes da pandemia a inflação na zona euro era baixa (1,4% em janeiro de 2020), agora está em território negativo, com – 0,3% em dezembro. Mais preocupante, neste momento, é o risco de deflação, pelo que o BCE não tem ainda margem para reduzir os estímulos e iniciar o longo – mas inevitável – caminho de regresso à política monetária convencional.

Dito isto, embora tal seja pouco provável, os tempos extraordinários que vivemos poderão levar a um regresso súbito da inflação a partir do segundo trimestre, à medida que os europeus saírem do confinamento e voltarem a gastar. Este cenário foi admitido na passada quarta-feira pela presidente do BCE, Christine Lagarde, num evento da Reuters.

Desde o início da pandemia, os níveis de poupança aumentaram em toda a Europa, dado que, embora tenham mantido os seus rendimentos, muitos milhões de pessoas deixaram de poder comprar determinados bens e serviços, como viagens, jantares em restaurantes ou saídas à noite. De modo que, assim que a pandemia estiver controlada e a economia reabrir, a libertação desta procura reprimida e a escassez de alguns bens e serviços poderão levar a um aumento dos preços, com as empresas a tentarem recuperar a faturação perdida durante a crise. A presidente do BCE lançou, por isso, um alerta aos bancos centrais, aos governos e aos “falcões” no seio do próprio BCE: a eventual subida da inflação, que deverá ser temporária, não pode servir para justificar uma antecipação da retirada dos estímulos monetários. A qual teria “riscos muito sérios”, defendeu.

Para Portugal, e para outros países da zona euro, o risco é que uma eventual tendência inflacionista no pós-pandemia venha a suscitar dúvidas, nos mercados, sobre a continuidade das medidas do BCE. Tal cenário colocaria sob pressão os países mais frágeis do euro e poderia, no limite, levar a uma crise de dívida soberana, pondo em causa as economias de vários países e a solidez do próprio projeto europeu.

Neste contexto, as declarações de Lagarde vão no sentido certo, tal como as de Isabel Schnabel, que integra o conselho executivo do BCE. Numa entrevista ao “Der Standard”, publicada na passada terça-feira, esta economista alemã defendeu que o BCE deve tornar claro que está disposto a tolerar um aumento temporário da inflação, sem mexer nos estímulos monetários. Porém, nem todos os elementos do conselho do BCE pensarão da mesma forma e é de esperar que haja resistências, em parte porque as taxas de juro negativas favorecem os devedores em detrimento dos aforradores, um tema sensível nos países do norte da Europa.

A este propósito, na referida entrevista, Schnabel responde às objeções dos “falcões”, sem deixar de recordar, de forma oportuna, que o problema da zona euro não é de política monetária, mas sim de falta de competitividade. E que esta depende das políticas dos governos, de quem se espera que façam a sua parte, porque os juros negativos ou baixos não podem manter-se para sempre. “Nesta situação, um banco central não tem outra escolha senão recorrer a instrumentos como compras de dívida. Apenas as políticas governamentais poderão assegurar crescimento sustentável e estimular o investimento. E aí as taxas de juro também subirão”, frisou.

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