O Bloco e o Chega

Fantasmas como “o racismo”, “o fascismo” e outros ismos artificiais não metem medo à maioria dos portugueses descontentes com o regime.

1. É um erro, tanto para a esquerda como para a direita moderadas, deixar o protagonismo político ao Bloco e ao Chega, partidos que querem o mesmo: radicalizar a sociedade portuguesa. Os extremos só crescem assim, inventando problemas para os quais eles, depois, terão a solução.

O Bloco posiciona-se há muitos anos, desde Francisco Louçã, como a trave da evolução civilizacional, escorado numa forma hedonista de ver a vida, com o foco no sexo, nas ‘drogas úteis’, no aborto e nos casamentos.

O Chega responde agora com a segurança, a defesa das tradições, o combate à corrupção – ou seja, o apelo ao Portugal das famílias, sério nas contas e nos costumes, e que terá sido abandonado pelo regime.

Sabe-se o quanto o Bloco de Esquerda cresceu com a sua agenda citadina, a que o restante país nunca deu grande importância. Pode, pelas sondagens que vão aparecendo, imaginar-se o que vem aí de André Ventura em relação ao futuro. No mínimo, creio que estaremos a falar de um bloco de direita com uma dimensão nunca inferior ao Bloco de Esquerda e com o potencial de ser uma força mais homogénea territorialmente.

2. Estas duas forças, como se sabe, encontraram estimáveis problemas a uni-los. O ‘racismo’ e o ‘fascismo’ são aqueles que estão agora de moda. O Bloco pretende fazer-nos acreditar que Portugal é um país habitado por gente doente – e tem Mamadou Ba como interessante militante desta tese; o Chega advoga que somos um paraíso mundial da convivência.

Como igualmente vemos todos os dias, há gente interessada em debater “o problema” com o mesmo afinco com que o franciscano William de Baskerville, em “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco, investigou o pseudo pecado inerente ao riso numa abadia da Idade Média. É deixá-los em paz, cada um dos campos vivendo intensamente o drama da existência do outro.

O ponto, para mim, é a incapacidade dos restantes partidos em desmontarem a artificialidade  da maior parte destas temáticas e, sobretudo, de deixarem ao Chega o quase monopólio de dois temas que são importantes para a maioria dos cidadãos: a segurança e o combate à corrupção generalizada em Portugal. Não bastam meia dúzia de declarações desgarradas para marcar posição nestes importantes campos da agenda política.

3. António Costa e o PS parecem acreditar que quanto mais o extremismo se manifestar mais valor será dado à moderação. Não tenho a certeza que assim seja. Lá por fora há casos que demonstram que o efeito da abstenção perante o combate político conduz a resultados diferentes dos pretendidos pelo PS.

O problema de Rui Rio e do PSD é outro. Os sociais-democratas sabem que, com as atuais sondagens, nas quais o CDS/PP vai definhando cada vez mais e a Iniciativa Liberal não mostra potencial para um grupo parlamentar a curto prazo, não vai ser possível aparecer uma alternativa à direita que ignore o Chega. Daí a intervenção recente de Rui Rio, imediatamente desfocada politicamente perante a habitual incapacidade do jornalismo substantivo de a repor nos termos exatos, sobre a evolução que seria necessária para o PSD poder equacionar um qualquer diálogo com o partido de André Ventura. Mas também o PSD me parece falhar no abandono de temas importantes.

Com tudo isto, há uma conclusão a tirar: tal como o Bloco, o Chega veio para ficar. É tão certo quanto os opositores de Putin, na Rússia, serem dados a problemas de saúde causados por envenenamento tóxico. Fantasmas como “o racismo”, “o fascismo” e outros ismos artificiais não metem medo à maioria dos portugueses descontentes com o regime. Fora da labuta nas redes sociais ou nos locais da moda da ‘movida’ de Lisboa e Porto, há mundos diferentes. Por isso, no futuro, as coligações serão cada vez mais complexas. Não é, necessariamente, um mal.

 

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