O capitalismo precisa de roupa?

Mostrar sensibilidade social, sem adotar ações corretivas concretas, é “bonito” mas não resolve um problema humano grave, avolumado pela pandemia: a indignidade da vida de quem tem que se sustentar com salários minimalistas.

“O capitalismo está eticamente nu e será destruído se não mudar. As pessoas não vão tolerá-lo. E o que teremos no seu lugar será, provavelmente, a ascensão do populismo”. Assim se expressou Paul Collier, professor de Economia e Políticas Públicas na Universidade de Oxford, em entrevista ao “Expresso”.

Collier é coautor, com John Kay, de “Greed is dead”. A densidade e a riqueza do livro não se compaginam com a extensão deste texto. Mas ajudam-me a discutir um ponto: para enroupar eticamente o capitalismo e promover a dignidade no trabalho em prol de uma sociedade mais justa, precisamos de repensar teorias e práticas de gestão, assentando-as na mutualidade e no sentido dos deveres.

Temos alicerçado a defesa do statu quo no argumento meritocrático – mas a igualdade de oportunidades, que faça jus a esse ideal, é uma miragem para multidões. O equilíbrio competição-colaboração tem dado lugar ao pendor excessivamente competitivo que abandona à sua sorte amplas franjas da população – sem condições para afirmarem o seu mérito.

A discussão sobre o salário mínimo é elucidativa. Muitos empresários e gestores reconhecem que o salário mínimo nacional é exíguo – mas remetem a resolução do problema para o aumento da produtividade. Pergunto-me porque não se usa o argumento justificativo das remunerações de executivos: subir salários para motivar pessoas e aumentar a produtividade. Mostrar sensibilidade social, sem adotar ações corretivas concretas, é “bonito” e ajuda a alimentar narrativas de responsabilidade social. Mas não resolve um problema humano grave, avolumado pela pandemia: a indignidade da vida de quem tem que se sustentar com salários minimalistas.

A Amazon, que se atribuiu a missão patriótica de abastecer a população norte-americana com produtos essenciais, é a mesma que paga salários miseráveis a milhares de trabalhadores e despediu empregados por mostrarem medo de exposição ao vírus – ao mesmo tempo que enriquecia significativamente. Os argumentos usados para defender tais práticas são, alegadamente, repletos de racionalidade económica, mas não deixam de ser indignos.

Já agora, a propósito de racionalidade económica: serão os salários dos empregados da McDonald’s na Dinamarca mais elevados do que os pagos nos EUA e em Portugal porque a produtividade dinamarquesa é maior – ou será esta mais elevada porque os salários são mais dignos? Como poderão cidadãos que quase não ganham o suficiente para comer e ter um teto investir na sua educação e na dos filhos?

Um estudo clássico publicado na “Nature” (Sarah Brosnan & Frans de Waal, 2003) mostra que os macacos capuchinhos são sensíveis às iniquidades e retaliam. Porque não haveriam de sê-lo, também, os animais humanos? A resposta não precisa de ser procurada nos protestos laborais – encontra-se entre executivos que se sentem injustiçados por fruírem de salários inferiores aos pares. Porque se usam critérios e princípios diferentes para gerir uns e outros? Porque as empresas não distribuem lucros pelos empregados em geral? Seremos uns mais iguais do que outros?

Daqui decorre que devemos estabelecer um teto máximo para os salários dos executivos? De modo algum. Do que precisamos é de estabelecer, com equilíbrio, um chão mais justo. De apurar o nosso sentido de dever. De desenvolver empatia pelos trabalhadores essenciais e recompensá-los devidamente. Do que precisamos é da bússola que Olof Palme, então primeiro-ministro da Suécia, terá sugerido a Otelo quando este lhe disse que a Revolução de Abril visava acabar com os ricos: “Na Suécia, pretendemos acabar com os pobres”.

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