O combate adiado

Álvaro Santos Pereira chama-nos de novo a atenção para um país refém do imobilismo do Estado, que odeia o reformismo.

1. Em entrevista que me concedeu e é publicada na edição do Jornal Económico de dia 12 de março, Álvaro Santos Pereira, ex-ministro da Economia e atual diretor do departamento de economia da OCDE, volta a falar sobre as necessidades de Portugal no combate à corrupção, que para ele deveria ser considerado uma prioridade nacional. Será através desse combate, compaginado com as imprescindíveis reformas estruturais, défice permanente de qualquer país, que, ainda segundo ele, se pode alavancar finalmente um crescimento digno desse nome e, por via disso, dar mais qualidade de vida aos portugueses.

O reformismo é a militância certa no caminho do desenvolvimento. Di-lo com convicção, não por estas exatas palavras, e cita o nome dos países que podem ser, em cada um dos itens, considerados como as melhores práticas do mercado global. Convido a ler.

Portugal deveria ouvir mais vezes economistas e técnicos como Álvaro Santos Pereira. Cidadãos como Paulo de Morais. Senadores como Ramalho Eanes. Cada um no seu plano, cada qual com a sua intervenção, todos com a genuína preocupação de contribuir para uma sociedade melhor e mais desenvolvida e solidária, dizem coisas em que vale a pena pensar.

2. No caso de Álvaro Santos Pereira, um independente que o PSD profundo maltratou e expeliu, chama-nos a atenção para um país aprisionado pelo imobilismo do Estado. Acrescento eu: refém das máquinas dos partidos. Um Portugal de primos e de amigos. Uma economia dominada por empresas de regime. Um Governo que mostra incapacidade para se desvincular da pressão da extrema-esquerda, que acha o Estado sempre poucochinho, mínimos os descontos (mesmo quando são máximos) e cego em relação ao essencial: o sistema corrói as pessoas, mina o regime.

Não há, como pretende o novo partido de extrema-direita, o Chega, portugueses bons e maus. O que há, isso sim, são pessoas. E estas adaptam-se. Aculturam-se. Sobrevivem. É este caldo que faz o Portugal em que nos tornámos: um país aparentemente desenvolvido e democrático mas social e economicamente estagnado, vivendo à conta dos fundos comunitários. Tem sido assim o século XXI português.

3. O remédio para este estado de coisas é, como sempre, de diagnóstico simples: mudar. Mas mudar, como sabemos, é o processo mais difícil que podemos colocar à consideração da condição humana, sendo que a sociedade nacional abusa do imobilismo, da aceitação e da passividade perante a injustiça.

Aquilo que tem sido mostrado pelos sucessivos casos judiciais, com políticos, banqueiros e capatazes vários, seria o suficiente para, noutros pontos do mundo, provocar sobressaltos, até sociais. Em Portugal nem por isso. As palavras, as intenções, são imediatamente uma moratória à ação. E é aí que está estacionado o combate à corrupção: agendas gerais, avanços tímidos, concessões mínimas, o suficiente para que tudo continue mais ou menos na mesma.

A pandemia, durante a qual já se fizeram em Portugal 489 ajustes diretos e se gastaram cerca de mil milhões de euros (espero sinceramente que sem mácula, mas teremos tempo para descobrir mais tarde), é mais um tempo de espera. Novo compasso. Entretanto, vem aí o Plano de Recuperação e Resiliência, um pacote-base de 13,9 mil milhões (MM) a fundo perdido. Até ao final da década teremos tido um total de 61 MM. Entre 2000 e 2018 tivemos 73MM. E, pelo meio, a quarta falência depois do 25 de Abril salva pelos 78MM emprestados e supervisionados pela troika. Vamos vivendo e adiando. Até quando?

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