Houve em Lamego passado, presente e futuro. Houve convergência, sem haver unanimismo. Houve a inequívoca vontade de consolidar o pluralismo.

O congresso do CDS do último fim-de-semana tem muito que se lhe diga, para quem quiser ter uma grelha de leitura actualizada do espaço do centro-direita português. Entre o que foi dito, o que não foi dito e tudo o que realmente aconteceu, decidiu-se em Lamego muito do que vai realmente estar em causa nos próximos dois anos.

O pré-congresso foi possivelmente o mais importante da história do CDS. O núcleo mais próximo de Assunção Cristas ensaiou o nascimento de um “partido novo”. De repente, a “ideologia do pragmatismo” era a solução fácil para todas as dificuldades de afirmação e crescimento do CDS. Assistimos a odes à laicização da sociedade, ao relativismo ético, à capacidade de encontrar uma palavra neutra para cada situação difícil.

Em contrapartida, houve uma verdadeira barreira, em diferentes quadrantes do Partido, que se bateu pela defesa das ideias, da intemporalidade dos princípios, da importância da identidade. Deste confronto saudável, em contraste com a moção que levou ao congresso, assistimos à repetida afirmação de respeito pelos princípios e doutrina do Partido por parte de Assunção Cristas e de todos os que lhe são mais próximos. No final, ganhou o CDS e ganhou Assunção Cristas, ainda que não goste de ser contrariada.

Assunção Cristas, que partiu para o congresso como única candidata credível à presidência do Partido, saiu de Lamego presidente por mais dois anos, sem surpresa para ninguém. Ainda assim, contrariando a sua vontade expressa, o Partido não a entronizou com o absoluto desejado. Assunção Cristas foi menos votada e a sua lista para o Conselho Nacional, onde se medem as diferenças de opinião, perdeu margem em relação há dois anos.

Assunção Cristas é, no dia de hoje, sem sombra de dúvida, a melhor líder partidária do espectro político português. Esta constatação é suficiente para lhe ter confiado o meu voto, que é um voto de confiança e não um cheque em branco. Este reforço da fiscalização e do pluralismo internos é bom para o Partido, e é particularmente bom para Assunção Cristas, por muito que choque com o seu ego no imediato.

O congresso de Lamego, como previ na passada semana, foi tambem o pré-congresso de Adolfo Mesquita Nunes e Francisco Rodrigues dos Santos. Foi evidente a necessidade de proclamações amplificadas de amizade e respeito mútuos, e foram verdadeiras; não é a amizade e o respeito que estão em causa entre pessoas bem formadas, mas com percursos, ideias e ambições muitíssimo diferentes.

No plano do real, mesmo que sintomaticamente tenha sido Adolfo Mesquita Nunes a garantir a elegibilidade parlamentar a Francisco Rodrigues dos Santos, este não deixou de ser o congresso teste das ideias de Adolfo, e Francisco não se coibiu de demonstrar a sua força e avisar que, se decidir concorrer à liderança, não pedirá licença a ninguém. Les jeux sont faits.

Este foi, também, o tempo da maturidade. Filipe Lobo d’Ávila que viu, ao longo dos últimos dois anos, a sua liberdade de pensamento classificada como oposição, fez o grande discurso do congresso. Num misto de calma e emoção, explicou ao Partido e ao país o que significa para si o tal “passo em frente” de que tanto se fala. Foi incisivo, acutililante e corajoso, sem nunca abdicar da serenidade. Anunciou a sua saída do Parlamento, que se prende com a óbvia incapacidade da direcção em ouvir e acolher diferentes opiniões e alternativas de pensamento.

O discurso de Filipe Lobo d’Ávila não precisou de chavões, de fantasmas ou conflito para ser aplaudido de pé. Na contabilidade do congresso, com mais 300 inerências potencialmente próximas da direcção, com outra lista alternativa a ir saudavelmente a jogo, Filipe Lobo d’Ávila tem no Partido curiosamente o mesmo score que Cristas tem em Lisboa, assegurando a segunda maior representação no Conselho Nacional, o parlamento interno do CDS, legitimando as suas ideias e consolidando o caminho que iniciou há dois anos. Nunca um grupo alternativo de pensamento conseguiu no CDS votações tão expressivas e consolidadas em actos sucessivos.

Assistimos também a anúncios importantes. Pedro Mota Soares é um reforço importantíssimo para as eleições europeias. Ex-ministro, ex-líder parlamentar, ex-secretário-geral, ex-presidente da JP, leva para a lista um curriculum notável para juntar à consolidação, ao fim de já dois mandatos, de Nuno Melo como o “homem do CDS na Europa”. Altíssimas expectativas, portanto, nesta frente.

Houve ainda a TEM, Tendência Esperança em Movimento, a primeira tendência oficializada dentro do CDS. Assumidamente democrata-cristã, como de resto quase todo o partido, revela-se particularmente conservadora nos costumes e preocupada com a integração e pacificação da história do CDS. Depois de dificuldades sucessivas e escusadas, criadas pela direcção à sua formalização, tiveram lugar por direito próprio no congresso, no Conselho Nacional e na Comissão Política Nacional. Abel Matos Santos e Luis Gagliardini Graça têm bons motivos para estar satisfeitos com esta caminhada, ainda nos primeiros passos.

Concluindo, houve em Lamego passado, presente e futuro. Houve reforço da identidade e da doutrina, sem renunciar à actualidade e ao pragmatismo que a acção política exige. Houve convergência, sem haver unanimismo. Houve a inequívoca vontade de consolidar o pluralismo. Houve todas as condições para, sem consagrações beatificantes nem tiques despóticos, esta direcção começar já o caminho que levará o CDS onde Assunção Cristas prometeu que estaria no horizonte das próximas eleições. Sem desculpas.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.