O “consenso”

Nem mesmo a parte do PS europeu e mais liberal pode dispensar um Presidente distanciado e crítico e um parlamentarismo combativo.

1. O dinheiro do layoff, como se previa, vai atrasar – e metade das empresas que o pretendiam não terão direito ao auxílio.

A Brisa, onde pontuava o Grupo José de Mello, foi vendida – e várias outras companhias desejariam ter sorte idêntica.

A TAP, provavelmente, será nacionalizada para escapar à tragédia que se abate sobre as companhias aéreas – e, se o BE e o PCP puderem ajudar a determinar a vontade de algum PS, a coisa não ficará por aí.

A Rede de Emergência Alimentar regista 55 mil novos casos de pobreza em Portugal – e Isabel Jonet, há muitos anos à frente do Banco Alimentar Contra a Fome, diz que nunca viu nada assim entre pessoas que tinham profissões liberais.

Mesmo no futebol, reino do dinheiro que parecia inesgotável, a torneira fechou porque sem jogos não há direitos de televisão e sem estes os clubes não podem satisfazer compromissos, inclusive pagar aos jogadores o que pagavam antes – e até o gigante mundial Adidas precisou da ajuda do governo alemão para chegar a dois empréstimos somando 3.000 milhões de euros.

Poderia continuar a pontuar de exemplos os tempos que vivemos mas creio não ser necessário.

2. Toda a gente já percebeu que a pandemia devida à Covid-19 vai desaguar numa crise económica (e social) dramática, equivalente àquela que a partir de 2009 se seguiu ao caso da bolha imobiliária nos EUA, com a falência do Lehman Brothers e a posterior colagem ao problema das dívidas soberanas. Seja qual for o nome, teremos nova austeridade.

Há muitos especialistas a dizer que a presente crise será até pior, porque tem a ver com o consumo, a economia real, e ainda falta perceber até que ponto a doença vai mudar os nossos hábitos. Voltaremos, de livre vontade, rapidamente a ver jogos de futebol ou a participar em concertos com dezenas de milhares de pessoas (quando isso for possível)? E regressaremos rápido aos restaurantes, aos hotéis, aos aviões, às viagens… ao turismo? Entraremos novamente em salas de cinema com o balde das pipocas? Estaremos disponíveis para eventos culturais bastante participados? Não se sabe. Mesmo cada um de nós ainda não sabe o que vai voltar a fazer. A frase é: “vamos ver”.

3. Em Portugal, onde o défice público está previsto saltar para os 140% do PIB, tudo isto se passa num clima político bastante apreciado, tanto nacional como internacionalmente. Belém e as duas entradas para São Bento formam uma Santíssima Trindade, nova versão da popular expressão “Cocó, Ranheta e Facada”, a que se juntou Rui Rio, com a sua peculiar visão de homem de Estado, que quer “o melhor para o País”. (Já agora: mesmo quem não goste do político não deveria deixar de reconhecer ao presidente do PSD a coerência e a determinação na estratégia).

Não minimizo as vantagens da convergência política em tempos de crise. Foi bom, até agora, registar a existência de agentes políticos nacionais sintonizados com os caminhos a seguir nesta grave emergência universal de saúde. Se nos lembrarmos que, entre as grandes forças políticas, só o PCP se absteve no primeiro estado de emergência e que PS, PSD, BE, CDS e PAN foram juntos até ao fim, devemos dar-nos por satisfeitos.

4. Estamos a entrar noutro tempo. O combate coletivo na saúde veio para ficar, pelo menos até aparecer a vacina, e nessa perspetiva o consenso é bom.

Já o silêncio na economia cheira a desistência e é incompreensível. A venda da Brisa – como antes o desmantelamento da PT, a falência dos bancos, a entrega das seguradoras – mostra que não há capitalismo em Portugal. Se até há pouco tempo, por cá, empresário era mesmo só a alcunha mais vulgar para capataz da banca, no presente promete designar o delegado dos fundos de investimento e do capital de países emergentes.

A política portuguesa precisa da luta política por ideias. Nem mesmo a parte do PS europeu e mais liberal pode dispensar um Presidente distanciado e crítico. Essas, como outras e entre as quais um parlamentarismo combativo pouco apreciado pelo regime, são válvulas do sistema. Todas têm de voltar a funcionar porque o dinheiro não chega às empresas e porque o Estado ameaça regressar ao controlo total da máquina para  crescer à sombra de nacionalizações. Sabemos o que isto significa. As três bancarrotas depois do 25 de Abril tiveram a ver com isso. Se quisermos festejar rapidamente uma quarta, este consenso vai no bom caminho.

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