Auditores: o desafio de validar projetos ‘verdes’

Importância crescente das finanças sustentáveis torna necessária a existência de entidades independentes que certifiquem o cumprimento das metas de sustentabilidade, perante os investidores, os clientes e outros ‘stakeholders’. Auditores falam da importância das agências de ‘rating’ e da legislação europeia.

A importância crescente das finanças “verdes” torna necessário que existam entidades independentes que validem se as organizações cumprem os objetivos de sustentabilidade e as firmas de auditoria de todo o mundo estão a abraçar este desafio. Os processos de auditoria das empresas são por si só considerados critérios ESG (fatores ambientais, sociais ou de governo das sociedades), pois permitem aos investidores, analistas, clientes e supervisores avaliar as práticas de uma organização, a transparência e a forma como é liderada e controlada. E ainda que alguns ESG possam aparecer nas demonstrações financeiras que são auditadas, na sua maioria são indicadores não-financeiros que também precisam de ser mensurados.

Um dos selos de gestão sustentável mais reputado em Portugal é o do Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável (BCSD), cuja adesão se faz através de uma carta de princípios destinada a acelerar a integração de uma estratégia social e ambiental nos modelos de negócio. Em maio, mais de 60 empresas nacionais, entre as quais mais de metade das cotadas do PSI-20, assinaram um manifesto deste conselho no qual se comprometeram a contribuir para a construção de um modelo de desenvolvimento baseado em cinco princípios fundamentais: promoção do desenvolvimento sustentável e inclusivo, do crescimento, busca da eficiência, reforço da resiliência e reforço da cidadania corporativa.

Se para as signatárias é uma forma de serem distinguidas como socialmente responsáveis, para os seus auditores significa um desafio extra. Os profissionais acreditam que podem auxiliar os clientes a perceber a regulamentação, fazer benchmarks entre setores, melhorar a qualidade dos dados que recolhem e, assim, facilitar a disponibilização de informação a investidores, credores, seguradoras ou mesmo fornecedores.

“O cenário atual é de uma multiplicidade de práticas destinadas a monitorizar e controlar os riscos climáticos, desde ferramentas microprudenciais e testes de stress a políticas macroprudenciais e monetárias. As entidades centrais encontram-se a facilitar cada vez mais o financiamento ‘verde’, desenvolvendo novos regimes regulatórios e introduzindo práticas de investimento sustentável na sua própria gestão de ativos”, refere Luís Gaspar, managing partner da Mazars em Portugal, ao JE. Para o gestor, as agências de rating podem desempenhar aqui um papel importante.

“A alteração da classificação de risco das agências externas de rating, tendo em consideração fatores climáticos, suportaria o desenvolvimento de metodologias mais holísticas e auxiliaria o setor financeiro a internalizar os riscos climáticos nas suas tomadas de decisão” – Luís Gaspar, Mazars

Para Cláudia Coelho, diretora de Sustainable Business Solutions da PwC, um dos principais desafios é enquadrar um empresa como “verde” relativamente à atividade que desenvolve, até porque a avaliação das práticas ambientais acaba por ficar condicionada à informação dada, muitas vezes voluntariamente, pela própria empresa nos relatórios de sustentabilidade.

E dá um exemplo: “Em Portugal, atualmente é obrigatória a publicação de informação não financeira por parte das entidades de interesse público com mais de 500 colaboradores (conforme Decreto-Lei m.º 89/2017), mas não é especificada a informação ou indicadores a reportar, nem é obrigatória a verificação independente dessa informação”.

Cláudia Coelho considera que a legislação sobre taxonomia que está a ser preparada por Bruxelas pode ser crucial neste processo. “Irá permitir classificar cada atividade relativamente ao seu contributo para seis grandes objetivos ambientais :mitigação das alterações climáticas, adaptação às alterações climáticas, uso e proteção dos recursos marinhos, transição para a economia circular, prevenção dos resíduos e reciclagem, prevenção e controlo da poluição e proteção de ecossistemas saudáveis sustentável”, adianta.

Stephen L. Brown, senior advisor da KPMG, diz que os diretores das empresas devem trabalhar com os conselhos de administração para determinar a função de cada comité de supervisionar os fatores ESG. “Por exemplo, o comité de auditoria pode ajudar a reavaliar se certos processos e controlos vão ao encontro dos relatórios da empresa nessa área”, refere o especialista, numa nota da consultora. “Dada a atenção redobrada dos investidores com as questões ESG, os comités também devem incentivar as suas equipas de gestão a reavaliar o âmbito e a qualidade dos relatórios e divulgações ESG da empresa”, diz.

Já Hugo Salgueiro, CEO de Auditoria do grupo Your, refere que as obrigações de governance, reporte e fiscalização de investimentos ambientais e políticas de sustentabilidade têm de ser encaradas de duas óticas diferentes. “O desafio dos auditores passa obviamente pela obtenção de uma prova suficiente e apropriada quanto à valorização e eventuais indícios de imparidade deste tipo de investimentos. Considerando a especificidade dos mesmos, o suporte de avaliações e estudos independentes efetuados por entidades especializadas, serão certamente um reforço da prova de auditoria necessária”, explicou ao JE. “Noutra vertente, os requisitos de divulgação exigidos atualmente às empresas, quer nos seus relatórios e contas, bem como em relatórios específicos de sustentabilidade quando aplicáveis, permitem não só aos auditores, mas também a outras entidades reguladoras e aos vários stakeholders, atestar ainda com uma segurança razoável ou limitada, as boas práticas ambientais das empresas”, conclui.

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