O dia da maior catástrofe humana portuguesa

Parte significativa da elite da nobreza e clero portugueses foi obliterada de repente num dia de agosto. Apenas cem escaparam do campo de batalha.

O maior propagandista português de todos os tempos, Luís de Camões, reconheceu que naquele dia morrera o Portugal aventuroso e bem-aventurado que inspirara o seu poema épico sobre a construção de um império. Camões escreveu a Francisco de Almeida: “(…) fui tão afeiçoado à minha Pátria que não só me contentei de morrer nela, mas com ela.”

Completaram-se a 4 de agosto 441 anos sobre a Batalha de Alcácer Quibir (1578), também conhecida como a Batalha dos Três Reis: Sebastião de Portugal, o seu aliado Abu Abdalá Mohammed Saadi II e o inimigo de ambos, Abu Maruane Abdal Malique I Saadi, tio de Mohammed, apoiado pelo Império Otomano. Essa batalha foi a maior catástrofe humana jamais sofrida por Portugal e pelos portugueses.

Muitos portugueses não têm noção da importância fatal daquela derrota para o destino de Portugal. Fomos intoxicados com o mito romântico do Desejado e que Portugal teria voltado ao seu anterior esplendor com a restauração da independência 60 anos volvidos. Mais tarde, o país que durante a regência filipina milagrosamente não perdera a maior parte do império, seria abrilhantado pelo ouro do Brasil e, depois da I Guerra Mundial, pelos restos do império em África.

É um engano desconsiderar a importância perene daquela batalha. A Pátria celebrada por Camões foi chacinada em Marrocos e não ressuscitou. O Portugal de hoje é o resultado de três reinvenções, a primeira em 1385, a segunda em 1640 e a terceira em 1986.

Há muitas pessoas que não têm em consideração a importância da história mais antiga na formação da mentalidade coletiva porque consideram que aqueles acontecimentos ocorreram há tanto tempo que os traumas de então há muito foram apagados da memória coletiva. O problema é que as “estórias” vão passando de geração em geração, transformando-se em mitos e moldando as mentalidades.

Naquele campo de batalha não ficou apenas sangue. Foi dizimada a existência natural e formal do pequeno reino que se havia transformado numa potência mundial. Desapareceram as pessoas-chave que lhe davam direção e expressão cultural. Parte significativa da elite da nobreza e clero portugueses – possuidores de conhecimento, de terra, dos bens de produção, capital, liderança e bravura – foi obliterada de repente num dia de agosto. Apenas cem escaparam do campo de batalha.

Dos milhares que sobreviveram feitos prisioneiros, muitas famílias pagaram caro a sua libertação caindo na pobreza, depois de terem caído na tristeza. A moral coletiva foi trucidada. Segundo historiadores, como António José Saraiva, a decisão de Sebastião de iniciar uma cruzada no norte de África deveu-se, não a um impulso juvenil, mas a uma preocupação estratégica, de resto iniciada pelas Cortes portugueses, mas negligenciada por Filipe II que recusou aderir à empreitada, preocupado com o seu império europeu.

Apenas quatro anos antes (1574), o Império Otomano tinha de novo reconquistado Tunes, em cuja defesa participara Cervantes. A reconquista da cidade poderia ser decisiva para a ambição de expansão dos otomanos. A reconquista de Tunes parece ser um eco da reconquista de Edessa (na atual Turquia) pelos muçulmanos aos cristãos (1144), que deu origem à Segunda Cruzada, de que resultou a conquista de Lisboa – e a chacina pelos cruzados de muitos habitantes da cidade, uma calamidade que o historiador António Borges Coelho considerava ter sido pior que o terramoto de 1755.

O domínio otomano sobre o Magrebe central e oriental selado com a reconquista de Tunes representava potencial ameaça de nova invasão muçulmana da Península Ibérica e da Europa.

A visão estratégica de Sebastião foi traída pela sua incompetência tática e possível instabilidade emocional. O famoso mercenário inglês Thomas Stukeley, que morreu na batalha (não se sabendo se assassinado pelos seus correligionários, se pelo inimigo) recusara-se inicialmente a combater quando se apercebeu da desproporção de forças e do mal concebido plano de batalha.

Saraiva disse-me também, embora relutante por não querer ser acusado de ‘geneticismo’, que a elite portuguesa era até àquele dia fatídico miscigenada com gente de origem germânica, nobreza dada à guerra, à conquista e à liderança, muitos dos quais cairiam em Alcácer Quibir.

Sebastião era filho de uma austríaca (Joana), e, tanto pelo lado do pai como da mãe, neto de austríacos (Carlos V e Catarina), bisneto de outro austríaco (Filipe), trineto de um alemão (Maximiliano I) e quadrineto de outro alemão (Frederico III) – tudo gente com ambições ou títulos imperiais. Alelos antigos. Afonso Henriques era filho de um guerreiro borguinhão, uma tribo germânica.

O período iniciado em 1640 terminou em 1974 com outra derrota, também em África, que decidiu o fim do império português e o regresso ao confinamento fronteiriço estabelecido por Dinis e Fernando IV no Tratado de Alcanizes (1297), para de imediato outro império surgir a reclamar o domínio não só do Portugal agora “pequeno”, mas também do seu anterior império.

Após a derrota da ambição imperial soviética, Portugal começou a reinventar-se a partir da decisão de regressar à Europa aderindo à CEE em 1986. Passados 33 anos, essa reinvenção ainda é imperfeita e o enorme potencial dos portugueses aguarda por uma visão estratégica motivadora e inovadora. Estamos, agora, de novo numa era de incerteza global, que tanto pode dificultar o nosso aperfeiçoamento, como pode constituir uma oportunidade para tornar Portugal “great again” como Estado membro da União Europeia.

Como me escreveu um leitor, este é o nosso paradigma.

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