Houve um momento raro na mais recente Conferência de Segurança de Munique em que a diplomacia deixou escapar a própria encenação. Não por um incidente, mas porque o chanceler alemão Friedrich Merz disse em voz alta aquilo que costuma ser apenas sussurrado: a chamada “ordem internacional baseada em regras” deixou de existir — se é que algum dia existiu para além de um círculo restrito de beneficiários.
Em diplomacia, a maior das grosserias é a honestidade. Merz cometeu essa falta. E seu discurso não foi isolado. Seguiu a mesma linha do alerta feito semanas antes por Mark Carney, em Davos, ao reconhecer que a economia política global entrou numa fase em que poder bruto e interesse nacional se impõem cada vez mais sobre regras, instituições e consensos cuidadosamente encenados.
O problema não é que a ordem tenha morrido. É que sempre funcionou como uma ficção útil. As regras existiam, mas eram escritas, interpretadas e suspensas pelas mesmas potências que se apresentavam como suas guardiãs. Quando serviam ao centro, eram invioláveis; quando o constrangiam, tornavam-se flexíveis ou descartáveis.
Os Estados Unidos invadiram o Iraque com base em inteligência sabidamente frágil? A ordem absorveu. Israel viola reiteradamente princípios humanitários no genocídio em Gaza? A ordem relativiza. A Rússia anexa a Crimeia? As regras tornam-se, subitamente, claras e universais. Washington captura ilegalmente um chefe de estado – longe de mim achar Maduro isento de qualquer culpa – e a Europa apoia a ação. Donald Trump ameaça abertamente “tomar” a Groenlândia — território de um estado europeu — e a Europa reage com indignação ostensiva. O problema nunca foi a ausência de normas, mas a desigualdade na sua aplicação.
A gestão Trump não criou essa assimetria; apenas removeu o verniz. “America First” não rompe com a ordem baseada em regras — traduz o que ela sempre foi para quem estava no centro. O unilateralismo sempre esteve lá. O que desapareceu foi o pudor.
A Europa, por sua vez, desempenhou o papel mais confortável possível: intérprete moral de uma ordem que nunca controlou plenamente, mas da qual se beneficiou enquanto funcionava. Defensora das normas quando conveniente, cúmplice silenciosa quando elas eram violadas pelos seus parceiros estratégicos. Agora, descobre tarde demais que nunca construiu autonomia estratégica real. Era multilateralista por delegação.
Para o Sul Global, o discurso de Merz não soou como tragédia, mas como confirmação. Esses países nunca habitaram plenamente essa ordem. Sempre viveram à margem dela, submetidos a sanções seletivas, condicionalidades financeiras e promessas não cumpridas.
O que vem depois não será automaticamente mais justo. Multipolaridade não é virtude em si. Mas algo muda quando a ficção perde credibilidade. Em Munique, em fevereiro de 2026, alguém disse em voz alta o que todos sabiam em silêncio. A ordem baseada em regras não colapsou de repente. Apodreceu lentamente, sustentada por décadas de hipocrisia administrada. O desconforto não veio da morte da ordem. Veio do fim da mentira.



