O digital da economia global

A inovação deve estar ao nosso serviço e não contra nós, ou em aproveitamento do povo e do mundo do trabalho, senão a recuperação será ainda muito, mas muito mais difícil de alcançar.

As dificuldades que a pandemia trouxe à sociedade e à economia portuguesa obrigaram a uma adaptação rápida à nova realidade, onde para além do teletrabalho, os encontros empresariais passaram a fazer-se atrás de plataformas como o Zoom, Skype ou Teams, entre outras.

As fortes restrições, no que se refere à circulação dos cidadãos, e o confinamento instituído pelas leis do estado de emergência limitaram o contacto direto da população com as instituições e, para além das reuniões, fizeram disparar por reação muitos negócios online e com recurso à internet.

Tudo ou quase tudo passa agora pelo digital. Esta é a nova realidade a que não podemos fugir ou ignorar, pois quem não se adaptou aos novos tempos viu o seu caminho muito mais complicado ou barrado, na tentativa de fazer sobreviver os seus negócios ou o seu próprio posto de trabalho.

Se antes da Covid-19 muitas empresas ponderavam ainda o momento de dar o passo para o digital, a pandemia fez antecipar, e muito, o acesso a este universo, empurrando-as definitivamente para o mundo digital. Uma verdadeira aceleração, onde nunca houve tantas empresas portuguesas na internet, pelo simples motivo que a nossa economia de serviços entendeu que esta seria a única forma de manter alguma atividade no período do confinamento, divulgando os seus produtos e projetos.

Nada será igual, ou quase nada mesmo, com custos e reflexos também inerentes a outros setores de atividade, como é exemplo o turismo de negócios, atividade que tinha uma fatia considerável de importância e criação de riqueza ao nível da economia local. As reuniões nacionais e internacionais de negócios, que por regra eram quase sempre presenciais, tornaram-se digitais, com cada um dos intervenientes a participar a partir da sua casa ou local de trabalho, sendo provável que muitas delas se mantenham no formato online no pós-pandemia.

E, como é fácil de depreender, aí chegados, este fenómeno digital irá disparar ainda mais, já não por necessidade mas pelas muitas vantagens que apresenta, como o baixo custo, e o facto de ser muito mais rápido, fácil e funcional. O mesmo se aplicará aos negócios comerciais, onde a oferta se irá multiplicar com muitos milhares de novas portas abertas de forma virtual e online.

Esta nova realidade será incontornável. Já todos perceberam que é possível fazer (quase) tudo sem sair de casa, e que será irrelevante estar a trabalhar na Serra de Arga no Minho, em Lisboa, Paris ou Londres, desde que a banda larga e o 5G seja igual. Esta nova tendência transversal às gerações veio, sem dúvida, para ficar, mas, no reverso da medalha, para além de afetar os PIB nacionais e a riqueza nacional, a grande preocupação serão os perigos da sociedade digital em que vivemos ou viveremos, como a privacidade e a fraude e os direitos constitucionais até agora conseguidos.

A inovação deve estar ao nosso serviço e não contra nós, ou em aproveitamento do povo e do mundo do trabalho, senão a recuperação será ainda muito, mas muito mais difícil de alcançar. Até agora, a utilização do digital e da internet chegava a nossas casas numa lógica de entretenimento. De um momento para o outro, passou a ser para o trabalho ou ensino, e esta mudança é demasiado rápida e radical, trazendo com ela outros desafios, como o direito a desligar do trabalho que a todos preocupa. Tudo o que é novo envolve riscos. O tempo o dirá se conseguiremos reduzi-los ou eliminá-los.

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