As pistas que podem justificar o trágico acidente do Elevador da Glória são já do domínio público. A investigação aponta que o “cabo cedeu no ponto de fixação” e o sistema de redundância não conseguiu parar o descarrila mento.
Sabe-se também agora que a Carris só exigia a troca do cabo após 1.500 dias, apesar de a prática ser substituir a cada 600 dias. Exigência feita nos cadernos de encargos era, pois, diferente do que acontecia na prática com a empresa pública gerida pelo município de Lisboa, que não explica a incongruência.
As atenções dos especialistas incidem na mudança do tipo de cabo: há seis anos era totalmente de aço, mas deixou de o ser com a troca por um cabo com ‘núcleo de corda de plástico’.
Mudança que Carlos Moedas diz que “tem de ser investigada” numa decisão que trespassou os executivos camarários do PS e do PSD. Percebe-se que este dado novo leve à contenção da socialista Alexandra Leitão sobre a tragédia que provocou 16 vítimas mortais.
Ficou isso bem patente no primeiro debate entre os candidatos à Câmara de Lisboa quando se falou sobre a falta de investimento da Carris e a manutenção do Elevador da Glória que a candidata nega ter aumentado.
O descarrilamento do Elevador arrisca pôr em causa a reeleição de Moedas, tendo muitos antecipado que iria secundarizar o debate de ideias e propostas para a cidade numa batalha autárquica entre Carlos Moedas e Alexandra Leitão que colocou o trágico acidente com maior dimensão e dramatização num primeiro momento após a agenda política dominada pela gestão do lixo e a crise da habitação. Mas no primeiro embate entre candidatos acabou por discutir-se a falta de casas, imigração, segurança e mobilidade.
O Elevador da Glória não podia faltar, mas não foi explorado pela oposição, tardando respostas a outras questões como redução de 24 para seis o número de pessoas afetas à manutenção que deixou de ser feita em permanência para ser feita em 30 minutos por dia.
Apontadas como consequências da externalização dos serviços de manutenção que põe a descoberto a tragédia da gestão empresarial pública com gestores a serem pressionados para otimizarem os resultados empresariais ao mesmo tempo em que lhes é exigido o cumprimento de funções sociais ou manutenção de equipa mentos críticos.
Uma espécie de pedra de xadrez demasiadas vezes sacrificada no tabuleiro da eficiência económica e pressão para redução de custos. Basta ver que o último concurso público para a manutenção dos ascensores e elevadores da Carris, que incluía o Elevador da Glória, ficou deserto em agosto de 2025 porque todas as propostas ficaram acima do orçamento previsto.
Esta matriz da gestão pública empresarial orientada para cortar custos deve ser redesenhada sob pena da destruição da qualidade dos serviços públicos e da confiança social. No final das contas, o Estado ao querer poupar acaba por gastar mais com esta lógica de austeridade imposta que gera fragilidades e expõe falhas. É este mecanismo de contratação, onde se exige muitas vezes o impossível, que tem de ser escrutinado e julgado. E não será a 12 de outubro.



