O Empreendedorismo, o Estado e a Covid entram num bar

O Estado não tem capacidade, nem obrigação, de garantir certos rendimentos às famílias e empresas, mas tem a obrigação de criar condições para que o país crie novas soluções.

Há várias semanas que analisamos os impactos do vírus e da sua eventual cura na economia: a Covid-19 atuou como o tipo que entra num bar e que assume uma atitude cada vez mais agressiva à medida que bebe, acabando por criar confusão e destruir tudo à sua volta. Com a agravante de que quando ia a sair ficou à porta, com pouca vontade de ir para casa, afetando a confiança de quem lá quer entrar.

O Estado tem tentado repor a ordem reabrindo a Economia agora que vive um período de maior acalmia. Tem, portanto, tentado voltar a trazer clientes ao bar, com um manifesto esforço financeiro, estudando incentivos, linhas de crédito e subvenções, entre outros, cujas consequências na Segurança Social e nas contas públicas iremos sentir mais tarde.

Não é propósito dar a entender que as iniciativas a que temos assistido são erradas, mal pensadas, ou insuficientes (até porque não faltarão vozes discordantes para o fazer), mas confesso ao leitor que gostava de lhes ver um aliado que ainda não foi mencionado: o Empreendedorismo.

O Empreendedorismo deve, mais do que nunca, ser fomentado e visto como uma solução.

O Estado não tem capacidade para garantir os rendimentos e a liquidez de todas as famílias que foram afetadas pelo lay-off, pelos despedimentos e pela quebra que as micro, pequenas e médias empresas vão ter. Estas últimas representam cerca de 70-80% dos postos de trabalho nacionais, o que é representativo do seu peso na economia.

Adicionalmente, é relevante dar também nota de que estes postos de trabalho já produziam abaixo do PIB per capita nacional antes do choque, dando origem a postos de trabalho menos remunerados em organizações menos capazes de resistir ao choque que enfrentam. Tal conjetura irá, muito provavelmente, originar mais dificuldades nas famílias que já as viviam.

Sabendo nós de antemão que o Estado não tem a capacidade (nem a obrigação) de garantir por si só estes rendimentos às famílias e às empresas, terá (aqui sim, a obrigação) de criar condições para que o país crie novas soluções. E o país terá, naturalmente, de responder e lutar para criar novos empregos, novos negócios, gerar valor e criar riqueza.

Para que tal aconteça, o Estado deve convidar o Empreendedorismo a revitalizar a Economia, criando condições aos portugueses que lhes permitam recuperar os rendimentos perdidos – o que é muito diferente de lhes compensar esses rendimentos diretamente. Sem que sejam asfixiados por impostos, sem que sintam que esse esforço é em vão, mas de um modo que sintam que lhes está a ser dada uma oportunidade que só depende deles agarrar.

Por forma a simplificar a resposta a este desafio, porque não aproveitar a boleia e procurar desenvolver o mercado do capital de risco em Portugal? Aproveitar para criar condições favoráveis aos investidores, continuar a fazer crescer o país e cimentá-lo como um dos locais ideais para o desenvolvimento empresarial e tecnológico a nível europeu, utilizando as sinergias de quem tem know-how de investimento, de quem tem capital e de quem tem a capacidade para fazer emergir da crise que se avizinha, novos e virtuosos negócios.

Um exemplo disso mesmo é o Future Fund do Reino Unido, um pacote de investimento de 250 milhões de euros, destinados a empresas que aproximem o país de posições de liderança intelectual em áreas como a ciência, tecnologia e inovação. O financiamento estará disponível às empresas candidatas na forma de um match feito pelo programa ao investimento de entidades privadas, aproveitado a sinergia criada com estas entidades, fazendo uso do seu know-how, e da eficiência do setor privado no capital de risco.

Com medidas orientadas tanto ao pequeno empresário, que terá uma nova oportunidade, como às empresas de base tecnológica que poderão aparecer e crescer no panorama nacional e internacional, num movimento de fomento do Empreendedorismo e da criação de valor, o país estaria numa posição privilegiada para dar a volta à situação que vive.

Sem querer ser demasiado lírico, é fundamental que saibamos ver as oportunidades que o famoso “novo normal” nos vai dar, num mundo cada vez mais digitalmente ligado e a pulsar por serviços nos quais temos de estar na linha da frente para oferecer. É altura de limpar o bar, e de o reabrir com uma decoração vanguardista, nunca antes vista.

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