O estado da Nação (I)

O progressivo fecho da classe política sobre si própria contamina todos os patamares da governação, da central à local, numa tentativa pouco democrática de tudo controlar, esquecendo o princípio básico de que os sistemas fechados geram entropia.

É com prazer que correspondo ao amável convite do JE para voltar a escrever uma coluna periódica, embora com alguma relutância em engrossar a enorme lista das pessoas com algo a dizer e contrariando o ensinamento, reforçado com o tempo, de ouvir mais e dizer menos.

Faço-o por dever de cidadania ativa que me impele a contribuir mesmo correndo o risco da crítica negativa. Uma sociedade e uma democracia devem ser tolerantes, mas combativas e esse combate deve ser travado no domínio das ideias.

A tolerância consiste, na sua aceção, na capacidade de suportar ou aceitar o outro e a diferença, de mostrar cordialidade, benevolência ou magnanimidade. Em suma, a tolerância social assenta em dois pilares centrais, a aceitação da diferença e a liberdade de expressão, atualmente tão maltratados.

É por considerar a defesa desses dois pilares um dever básico de cidadania, bem como, uma atitude que rareia no atual contexto sociopolítico, que hoje me motivo a escrever esta coluna de opinião.

Tentarei, nesta e nas seguintes oportunidades, abordar temas que muito me dizem e que julgo que, de uma forma ou outra muito importam a qualquer concidadão, e se enquadram globalmente no estado da nação.

Não abordarei, para já, o que de muito positivo temos, das nossas qualidades coletivas ao contexto potencialmente benéfico. Antes, optarei por evidenciar aquilo que de menos bom nos afeta, em particular o que é estruturante para a nossa sociedade, na política, na economia, na sociedade, na justiça e no funcionamento do Estado. Essa opção é pensada pois considero que nos encontramos num momento de transição da sociedade e esses momentos podem ser facilmente aceleradores do declínio ou constituir a oportunidade para uma reforma positiva.

O momento político que vivemos é caracterizado pelo predomínio das narrativas das extremas, não as designando por extrema-esquerda ou extrema-direita, porque ideologicamente não o são, mas simplesmente por extremas, na medida em que são isso mesmo no atual espectro político-partidário.

O predomínio das narrativas das extremas radicaliza o discurso político e, consequentemente, o social, potenciando o populismo e a propaganda.

Acresce a este problema, a ausência de verdadeiro debate ideológico nos partidos do sistema político, as constantes picardias, a falta de visão e de abrangência civilizacional das lideranças disfarçadas de um dito pragmatismo ou de tecnocracia, a ausência de propostas estratégicas para o país, a inexistência de verdadeiros canais institucionais de comunicação construtiva entre os principais partidos e, muito particularmente, o progressivo fecho da classe política sobre si própria, em torno das organizações de juventude e do restante aparelho dos partidos, que contamina todos os patamares da governação, da central à local, numa tentativa pouco democrática de tudo controlar, esquecendo o princípio básico de que os sistemas fechados geram entropia.

A economia, por seu lado, continua a ser profundamente dependente do Estado, situação que se tem agravado em consequência da última grande crise económica, mas também em virtude de um pensamento estatizante, não necessariamente de esquerda, mas que se tem tornado dominante nos partidos de esquerda, de que o Estado, e não as empresas, pode ser o motor verdadeiro do progresso económico.

Essa grande dificuldade de grande parte dos atuais agentes políticos em olhar para as empresas e para os empresários como o verdadeiro e essencial motor da economia, a capitis diminutio imposta a quem tem origem no dito setor privado e que limita por exemplo a participação na atividade política e o exercício de cargos públicos, a convicção de alguma esquerda de que a economia virtuosa é uma economia de PME, por oposição ao “grande capital”, a fragilidade do tecido económico-empresarial, a ausência de grupos empresariais sólidos de capitais nacionais com dimensão internacional e a perda de centros de decisão da nossa economia, em particular no setor da banca, são causa e efeito do atual contexto em que vivemos.

A linha de pensamento que coloca o Estado no centro da atividade económica privilegia a satisfação social que alinha pelo mínimo denominador comum. O foco não é colocado no trabalho, na iniciativa ou empreendedorismo individual, na verdadeira inovação e ambição de criar e fazer, mas, antes, na lógica da satisfação pelos mínimos, da prevalência do emprego e até do lazer sobre o trabalho produtivo, criando uma multidão de pessoas inadaptadas, resignadas ou focadas num hedonismo social de baixo quilate, incapazes de exercer plenamente os seus direitos e deveres de cidadania.

Se a isso juntarmos a alienação de uma parte significativa da população em relação à ação política, bem como o déficit cultural e científico que também afeta grande parte da mesma, estaremos na prática a criar o “caldo de cultura” que facilitará o progresso das atuais e de outras, ainda mais nocivas, extremas políticas.

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