O exemplo de Varandas

O presidente do Sporting é um dos dirigentes que terá uma palavra a dizer na construção do futebol português do futuro.

1. Agora que o Sporting Clube de Portugal já está a caminho do fim dos festejos – do título do futebol mas também dos bicampeonatos europeus no futsal e hóquei em patins – é tempo de refletir um pouco no caminho que trouxe de novo o clube, e a sua SAD, às vitórias. A primeira constatação, para quem olha de fora, é que o Sporting está a ter êxito porque voltou ao básico: foco na atividade, profissionalismo na gestão.

Frederico Varandas rompeu com a psicose do coitadinho, exponenciada pelo seu antecessor, de que o mundo está sempre contra o Sporting. Sobretudo, traçou um caminho. O que importa na competição desportiva não é outra coisa se não formar as melhores equipas possíveis dentro da realidade financeira existente. Isto requer atenção ao essencial e criatividade.

2. Vejamos como formou o plantel de futebol deste ano: convicção no treinador, critério nas aquisições de jogadores, coerência na gestão – e, na base, a aposta na formação como caminho para viabilizar o sucesso. O Sporting não ganhou este ano apenas porque teve Nuno Mendes, Gonçalo Inácio e muitas vezes Tiago Tomás.

O Sporting ganhou porque encontrou um treinador muito competente (Rúben Amorim) e formou um plantel coerente com as ideias dele. O que Nuno Mendes e outros permitirão, já este ano e depois no futuro, é que a SAD, na sua condição de permanente vendedora de jogadores, possa ter acesso às verbas necessárias para depois, com critério e conhecimento do mercado, conseguir manter a competitividade e estar presente mais vezes na Liga dos Campeões que tudo potencia: novos encaixes financeiros, valorização de jogadores na maior montra do futebol mundial. Isto é: uma definição de economia circular aplicada ao futebol.

3. Vejamos o capítulo da criatividade.

Este ano, porque não tinha os meios financeiros necessários, o Sporting também não fez só aquisições; estabeleceu, sobretudo, parcerias. Foi assim que contratou Pedro Gonçalves (ao Famalicão): 50% do passe por 6,5M€; Nuno Santos (ao Rio Ave): 3,7M€, com o clube de origem a ficar na posse de 20% de uma futura venda; Tabata (ao Portimonense): 500 mil€, com os algarvios a ficarem com 90% da venda futura ou apenas 50% se o Sporting entretanto pagar 4,5M€. Mesmo a aquisição de Paulinho (16M€ contabilísticos) foi mitigada pelo caminho inverso do colombiano Borja (3M€) e o empréstimo de Sporar.

De resto, o Sporting recorreu ao empréstimo de um jogador (Pedro Porro) que tinha estado muito tempo lesionado no Valladolid e não triunfara no Manchester City; a aquisições chamadas de ‘custo zero’ (Adan e Feddal); aos regressos de Palhinha e Bragança; à atenção à situação de João Mário (no Inter). Com pouco, Varandas e o seu braço direito nas finanças, Salgado Zenha, fizeram muito.

4. Pelo meio, o presidente do Sporting retificou erros. Vai acabar de colocar este ano todos os excedentários (um alívio para a tesouraria). Mostrou coragem com as claques (o poder político não acompanha, infelizmente). Estabeleceu o talento no marketing (e mais discrição na comunicação). Emendou o organograma da Academia (e também a vai expandir).

Mostrou princípios (recusa antecipar as eleições que nesta altura ganharia facilmente).  Defende os seus de forma urbana. Não se mete à frente das câmaras para comungar do protagonismo de quem desportivamente o merece, ou seja, jogadores e treinadores. Usa o palco discretamente. Trata os sócios e adeptos como pessoas adultas. Gere o clube pondo o profissionalismo a par da paixão.

Varandas é um dos dirigentes que terá uma palavra a dizer na construção do futebol português do futuro. Não ganhará sempre, como é normal e, até, desejável numa interessante competição desportiva. Mas espero que o Sporting o saiba estimar. Não é todos os dias que aparece um dirigente assim.

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