O exemplo do vice-almirante

O caso de Gouveia e Melo deveria ser transformado numa regra: escolher os melhores, colocar Portugal a funcionar.

1. Não tenho nada a dizer sobre a polémica negacionista em relação à vacinação em curso no combate à pandemia devida à Covid-19. Há coisas que o futuro se encarregará de esclarecer devidamente, embora me pareça um tanto estranho que em pleno século XXI ainda haja pessoas que desconfiem reiteradamente da ciência e dos caminhos por ela recomendados, caminhos esses que, como sempre acontece, hão-de evoluir, ser retificados e alvo de aperfeiçoamentos vários, até na eficácia das vacinas.

Outra coisa, muito diferente, será prestar atenção e monitorizar em permanência aquilo que o poder político, em Portugal e no mundo, promove a partir da necessidade da vacinação, sobretudo a possível discriminação entre pessoas e o seu seguimento digital. Esta é uma área muito sensível, na qual toda a atenção será pouca.

2. Aquilo que aqui quero salientar é a figura do vice-almirante Gouveia e Melo.

Já sabíamos que era um homem capaz de cumprir missões. Todo o país viu como, a partir de uma situação de pré-calamidade no processo de vacinação, que fazia sobrar doses, conseguiu impor um ritmo de trabalho que esgotou stocks e levou Portugal a ter neste momento 66% da população totalmente vacinada (79,2% dos adultos) e 76,3% com pelo menos uma dose tomada (91,6% dos adultos).

O país já tem 70% dos seus habitantes vacinados, o que só acontecerá na Alemanha em 39 dias, em Itália daqui a 60, no conjunto da União Europeia em 58 ou nos Estados Unidos em 217.

A eficácia do processo, é disso que estou a falar, tem sido tremenda, obviamente havendo a realçar o trabalho das pessoas da área da saúde, que estão a saber lidar com uma pressão constante e com um espírito positivo que já pude testemunhar.

3. O que todos vemos neste caso é a diferença entre um ‘boy’ partidário, como aquele que lá continuou em comissão de serviço na Cruz Vermelha, e um português habituado a resolver, a assumir missões e a cumpri-las com eficácia.

Há muitas semanas que a figura de Gouveia e Melo nos interroga sobre o que poderia ser este nosso espaço comum se estivesse entregue aos melhores e não refém de uma classe política escravizada pelos partidos e pelas necessidades das suas clientelas.

Esta boa escolha do Governo de António Costa, que partiu de uma necessidade, deveria ser uma bandeira para aquilo que há a fazer em muitas áreas específicas, nas quais a política e os partidos não deviam ter qualquer relevância, porque atrapalham, complicam, pioram.

4. Mas ainda faltava ver o que vimos a Gouveia e Melo na ‘contestação’ de Odivelas: um cidadão capaz de lidar com as pessoas que pensam diferente, o contestam e até o agridem verbalmente.

Se antes de Odivelas conhecíamos o militar que fazia, agora sabemos que a pessoa, sempre política, naturalmente, também não tem nada a perder na comparação com os políticos profissionais. Antes pelo contrário. Como é genuíno, um homem destes agrega, chega mais facilmente às pessoas.

5. Não se trata de defender nem homens providenciais nem, muito menos, a subordinação da política à instituição militar. Tudo tem o seu campo e a sua hierarquia.

A única coisa que quero pontuar é que Portugal tem pessoas, homens e mulheres, capazes de fazer crescer um país mais competente. Os líderes políticos não deveriam fazer deste exemplo de necessidade um caso fortuito. Deveriam transformá-lo numa regra: escolher os melhores, colocar o país a funcionar.

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