Há alguns invernos atrás, a Europa susteve a respiração. As famílias viram as suas contas de aquecimento disparar e as empresas reduziram luzes e produção para sobreviver, enquanto os noticiários acompanhavam os níveis de gás como uma tábua de salvação. E por trás de tudo isso estava uma realidade incómoda: a Rússia tinha transformado a dependência energética da Europa numa arma política.
Essa crise foi um alerta claro, uma lição que a Europa não se pode dar ao luxo de esquecer.
Em dezembro deste ano, o Parlamento Europeu e os Estados-membros da UE chegaram a um acordo histórico: um caminho firme e irreversível para eliminar gradualmente o gás e o petróleo russos. É a Europa a escolher a segurança, os valores e a soberania em vez da chantagem. Graças à nossa forte insistência, os Estados-membros terão de deixar de comprar gás natural liquefeito a partir de 1 de janeiro de 2027 e gás canalizado a partir de 30 de setembro de 2027 ao agressor russo. Portugal exemplifica este caminho: o primeiro-ministro Luís Montenegro confirmou que o país será, muito brevemente, totalmente independente do gás russo, um compromisso assumido por convicção e não por conveniência.
A Europa não pode continuar a pagar à Rússia mais pela energia do que paga à Ucrânia em ajuda. Cada euro que vai para Moscovo alimenta uma máquina de guerra, cada dia que a Europa continua a comprar energia russa significa vidas perdidas na Ucrânia.
Mas a independência energética também deve ser justa. Fomos claros desde o início: acabar com a energia russa não pode ser feito à custa das pessoas ou da indústria europeia. É por isso que pressionámos para garantir que esta eliminação gradual reforça a autonomia estratégica da Europa, mantendo os preços da energia estáveis e previsíveis tanto para as famílias como para as empresas.
As novas regras introduzem também sanções severas e harmonizadas para quem tentar contornar a proibição. Os importadores terão de apresentar provas fiáveis da origem real da sua energia. Não se trata de burocracia desnecessária, mas da forma de garantir que a Europa nunca mais seja enganada. E aprendemos com o passado: o novo quadro define condições rigorosas para qualquer suspensão temporária da proibição
Este acordo prova que o Parlamento Europeu pode agir com rapidez e unidade quando a segurança da Europa está em jogo. Mas esta liberdade de ação exige agora que acompanhemos estas decisões políticas com investimentos maciços em interligações transfronteiriças, na modernização das redes e na construção de um mercado único europeu da energia, capaz de integrar mais renováveis e de responder a choques externos.
A era do gás e do petróleo russos na Europa está a acabar. Não porque seja fácil, mas porque é essencial. A Europa pagou um preço elevado por essa dependência – económica, política e moralmente. Agora, com este acordo, estamos finalmente a virar a página.



