O fim da tourada nas bolsas

Num evento com investidores há cerca de 15 dias, um analista de ações colocou a pergunta e deu a resposta. A correção nessa semana nas bolsas representava o fim do bull run, a longa série de ganhos? “Não, de todo”, foi a resposta.

As mudanças de ciclo são sempre alturas de nervosismo, mas nas bolsas essa tensão é crescente e palpável. É natural que aqueles cuja função é lucrar com o investimento dos clientes em ações não queiram que a época dourada chegue ao fim. O enfoque nos aspectos positivos da conjuntura anda de mão dada com o denial, uma espécie de fechar os olhos ou minorizar os riscos e as notícias negativas.

Já vimos isso nos meses que antecederam o rebentar da bolha das dotcom. Está tudo positivo até que, de repente, não está. Acontece alguma coisa que tem impacto alargado e, em momentos, tudo aquilo que era negativo mas ignorado começa a parecer sombrio e leva a um movimento generalizado de venda.

O problema é que entre o insistente otimismo e o repentino pânico, muita gente perde dinheiro. As empresas sofrem perdas de capital, acabam por investir menos e cortam nos custos. Investir em bolsa é um negócio de risco que pode levar a quedas. Quem tem vertigens pode ficar-se pelo investimento em portos-seguros como obrigações ou PPR (como explicamos no Especial Poupar & Investir nesta edição do Jornal Económico).

No entanto, mesmo quem quer correr riscos tem de ser bem aconselhado. Ninguém quer um corretor ou um consultor financeiro que só olha para os riscos negativos, mas ninguém quer um que seja positivo demais. Por esta altura do ano surgem os outlooks dos bancos de investimento e das gestoras de ativos.  Já vi alguns e parecem pender para a perspetiva positiva.

Os resultados das empresas continuam sólidos e a desaceleração da economia global é uma tendência visível, mas ao mesmo tempo gradual e controlada.

Fazer futurologia é, contudo, sempre difícil, especialmente num contexto como as bolsas, que envolve sentimento, contágio e informação desequilibrada. Prever o próximo trigger, aquele que deita abaixo todas as outras análises é quase impossível.

Quem conseguiria prever a detenção esta quinta-feira, em Vancouver, de Meng Wanzhou, chief financial officer da chinesa Huawei? No contexto da guerra comercial, sobre a qual falou-se de tréguas no cimeira do G20 no fim de semana passado, a detenção, pedida pelos Estados Unidos, foi um evento inesperado e levou a tombos nas bolsas mundiais.

Em Wall Street, o dano acabou por ser limitado por um rally no fim da sessão, mas fica mais um aviso. Um dia vai mesmo acontecer, o bull vai deixar de correr. Seria prudente começar a aceitar isso.

Recomendadas

O Estado e o Jornalismo

O que pode fazer o Estado para ajudar a Comunicação Social a sair da crise? A questão lançada pelo Presidente da República é pertinente. De facto, o Estado pode fazer muitas coisas para ajudar os jornalistas a fazerem o seu trabalho.

Fukuyama enganou-se redondamente

Nem a democracia liberal impera mundialmente, nem o mundo caminha para uma situação de paz. Bem pelo contrário. Encontramo-nos numa escalada confrontacional sem precedentes.

Monopólios, filhos bastardos da democracia

Os Estados, desesperados na sua cada vez maior irrelevância, transferem a sua lealdade para quem lhes dá um balão de oxigénio sob forma de receitas e impostos.
Comentários