Ao longo das últimas cinco décadas, os Estados Unidos construíram um vasto e persistente histórico de intervenções militares, políticas e encobertas em diversas regiões do mundo. Do Vietname ao Afeganistão, do Iraque à Líbia, da América Central ao Oriente Médio, o padrão é notavelmente consistente: forte capacidade de destruição inicial, promessas de libertação, reconstrução, combate ao comunismo, e um legado duradouro de instabilidade, fragmentação institucional e sofrimento social.

A pergunta essencial impõe-se com desconfortável clareza: houve algum caso em que a situação efetivamente melhorou de maneira sustentável após uma intervenção norte-americana? A resposta honesta é decepcionante. Mesmo onde regimes autoritários foram derrubados, o vazio político subsequente raramente foi preenchido por instituições funcionais. Pelo contrário, multiplicaram-se guerras civis, Estados falidos, extremismos e crises humanitárias prolongadas.

O Afeganistão tornou-se o símbolo maior desse fracasso. Após vinte anos de ocupação, triliões de dólares gastos e milhares de vidas perdidas, o país regressou praticamente ao ponto de partida. O Iraque, por sua vez, converteu-se num foco permanente de instabilidade regional, alimentando divisões sectárias e abrindo espaço para grupos extremistas que antes sequer existiam.

Esse mesmo padrão reaparece na abordagem adotada por Donald Trump em relação à Venezuela. Sob o discurso de “combate ao narcotráfico”, “restauração da democracia”, “defesa da liberdade” e “pagamento de dívidas históricas por expropriação”, a ação militar dos Estados Unidos na Venezuela, poderá ter um final semelhante. Ainda é cedo para prever se o resultado da captura de Nicolas Maduro aliviará, de fato e de modo durável, o sofrimento da combalida população venezuelana, ou se aprofundará a crise econômica, fragilizará ainda mais o tecido social e radicalizará posições políticas internas. Resta saber se o remédio externo será capaz de curar — e não de agravar a doença ainda mais.

É importante ressaltar que nenhuma das intervenções norte-americanas foi apresentada como um projeto de dominação. Pelo contrário, todas foram envoltas num verniz idealista de direitos humanos, democracia e ordem internacional. Trata-se de uma retórica moralizante que, historicamente, tem servido para encobrir interesses estratégicos, energéticos e geopolíticos muito mais concretos.

O binómio Chavez-Maduro foi trágico para o povo venezuelano. Mas – ressalte-se – os Estados Unidos não são salvadores universais, nem engenheiros legítimos do destino alheio. A história recente demonstra que não existe atalho externo para a construção de legitimidade política e estabilidade social. Cabe a cada país — com seus próprios ritmos, contradições e escolhas — encontrar o seu melhor rumo. Persistir no mito do intervencionismo benevolente não é idealismo: é insistir num erro já amplamente documentado pela própria história.