O gato e a lebre

Agora que a inflação já ultrapassa os 3% na Europa e os 5% nos EUA, os governos e as empresas terão, mais tarde ou mais cedo, de começar a ceder a aumentos de salários, bem como a um aumento da despesa num momento em que a recuperação é frágil.

A Autoridade Europeia dos Valores Mobiliários e dos Mercados, mais conhecida pelo seu acrónimo inglês ESMA, tornou públicas as suas preocupações no relatório “Tendências, Riscos e Vulnerabilidades”, publicado no dia 1 de Setembro.

A ESMA enumera os riscos que estima poderem afectar os mercados, nomeadamente as valorizações excessivas dos mercados financeiros e as taxas de juro negativas ou próximas de zero. Até parece uma mensagem ao estilo ‘gato por lebre’ que ainda está bem presente na memória de muitos portugueses.

Razão pela qual esta mensagem não deixa de ser estranha, e provavelmente direccionada para o Banco Central Europeu, que, juntamente com a Reserva Federal dos EUA, têm sido os responsáveis pela política monetária e financiamento da política fiscal dos governos, através dos biliões que têm disponibilizado.

Os investidores, esses, pouco podem fazer senão procurar alternativas ao que se perspectivam ser mais 30 anos de taxas próximas do zero na Europa. E com os níveis de inflação finalmente a materializarem-se e a destruírem o valor dos euros guardados nos bancos, ou em produtos garantidos a taxa zero, é mesmo urgente procurar uma protecção para as poupanças.

Agora que a inflação já ultrapassa os 3% na Europa e os 5% nos EUA, os governos e as empresas terão, mais tarde ou mais cedo, de começar a ceder a aumentos de salários, bem como a um aumento da despesa num momento em que a recuperação é frágil e sujeita às enormes transformações digitais da sociedade.

Apesar de algumas empresas estarem caras, a ESMA não incorpora o efeito de perda do poder de compra na sua análise, nem o aparecimento de novos empregos associados à alteração tecnológica estrutural da sociedade.

É verdade que a pandemia trouxe mais investidores aos mercados, com menos literacia financeira e, mais expostos a fraudes, mas é precisamente aí que as entidades de supervisão estão a falhar.

O desenvolvimento de plataformas de negociação prometendo custos zero, de anúncios nas redes sociais prometendo cursos de enriquecimento instantâneo, ou de grupos privados de mensagens onde se tenta captar dinheiro para esquemas ilícitos prometendo milhões, é o verdadeiro risco que os mercados e toda a sociedade enfrentam.

A ESMA devia estar preocupada em assegurar poderes para todas as autoridades de supervisão, nomeadamente para bloquear sites, grupos de mensagens ou forçar as próprias plataformas a identificarem, com a ajuda das autoridades de supervisão, esquemas e, numa óptica de prevenção, impedirem que os burlões se aproveitem da iliteracia dos cidadãos.

O foco deve estar no combate ao jogo, e nas abordagens de youtubers, bloggers ou tiktikers, que não dominando a área de mercados, se aproveitam da ausência de regulação para promover cursos miraculosos, fantasias e estilos de vida, prometendo riquezas sem o mínimo de fundamentação.

Resta saber quem é o gato e a lebre, se investidores, burlões ou supervisores.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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