O gato e os ratos

De boa vontade soltaria um urso no Parlamento e uma mamba beijoqueira em Belém, mas já me estou a ver acusado de crueldade com os animais.

O mês de agosto deixou-me triste por Palmerston, o gato do Foreign Office britânico, se ter reformado. Entrou ao serviço em 2016, e foi batizado com o nome do ministro dos Negócios Estrangeiros que mais tempo esteve em funções, Lord Palmerston. Quatro anos depois, Palmerston, o gato, enviou uma carta a Sir Simon McDonald, Subsecretário Permanente do ministério, onde dizia que estes tempos de coronavírus o levaram a tra­balhar no campo e fizeram-no apreciar a vida pacata e tranquila do meio rural, e desejar aposentar-se.

Consta que as brigas que teve com Larry, o gato do 10 de Downing Street, residência do primeiro-ministro, não tiveram qualquer papel na saída de Palmerston, que se deveu à excessiva atenção de que era alvo e lhe causou stresse e o fez engordar. Chegou a haver ordens para não lhe ser dada comida fora de horas e se respeitar o seu espaço próprio.

Agora, ele, que viu passar Boris Johnson e Jeremy Hunt, vai finalmente ter direito ao repouso do guerreiro. Infelizmente, embora lhe seja concedida a aposentação, como não consegue comprovar a idade vai-lhe ser negada a pensão. É injusto para quem cumpriu o seu dever com devoção e zelo: já em 2017, com um ano de serviço, o chief executive mouser tinha no palmarés 26 ratos e uma ratazana, sem contar os troféus de duas patas.

Palmerston vai deixar saudades. É um animal político, com “A” grande. Pertence a um clube restrito cujos membros se ocupam de locais famosos. Larry é outro exemplo. Entrou no 10 de Downing Street em 2011, com Cameron, e é conhecido como sendo violento com os seus colegas mousers desde os tempos de Theresa May, talvez por ter estado prestes a perder o seu lugar para Osborne e Hancock em 2015, quando os dois apanharam um rato na Chancelaria. As funções de Larry incluem “greeting guests to the house, inspecting security defences, and testing antique furniture for napping quality”.

Mas podia-se citar Paddles, o Primeiro Gato da Nova Zelândia, que divide a vida com Jacinda Ardem; Think Think e Ah Tsay, os gatos da presidência de Taiwan; Evie e Ossie, mãe e filho, Cabinet Office Mousers em Whitehall; Gladstone, o Chief Office Mouser do Tesouro britânico; Smudge, a gata há muitos anos ao serviço no People’s Palace em Glasgow e membro do  General, Municipal, Boilermakers and Allied Trade Union; Ambassador, o main mouser do Ministério dos Negócios Estrangeiros ucraniano. Isto sem falar dos que já não estão entre nós, como Socks, o gato de Bill Clinton, ou Humphrey, Chief Mouser to the Cabinet Office de 89 a 97, que deve o seu nome a Humphrey Appleby da série de televisão “Yes Minister”.

É estranho não serem conhecidos exemplos portugueses de animais em lugares semelhantes. Que tem o PAN feito por isso? Eu estou pronto a ajudar e dar o primeiro passo. De boa vontade soltaria um urso no Parlamento e uma mamba beijoqueira em Belém, mas já me estou a ver acusado de crueldade com os animais.

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